segunda-feira, julho 03, 2006

Dando tempo ao tempo


Domingo é dia em que tenho muitas ocupações. Quase não tenho tempo para tanta coisa. Para começar, inicio o dia como terminei a noite de sábado. Dormindo. E durmo até partes remotas de minha anatomia fazerem bico.
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Acordo, banho, desjejum, jornal. Resolvo caminhar na Quinta da Boa Vista, aqui pertinho. São 40, 50 minutos de marcha batida. Volto pra casa, mais banho. Normalmente, vou almoçar na minha mãe. Mas não é incomum eu pilotar as poderosas turbinas do meu fogão e preparar o meu rango dominical.
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Com o bucho cheio, o próximo tópico da minha agenda é fun-da-men-tal. Eu me estiro no sofá, me dedicando à prática do escutar cabelo crescer. De vez em quando pego um resto de jornal, mas na maior parte do tempo eu me ocupo mesmo em dar ouvidos aos meus capilares. Boto um CD para tocar e fico nessa ocupação até enjoar. E eu demoro pra enjoar disso.
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Neste domingo, botei um CD da Nana Caymmi, me larguei no sofá, um tasquinho do Globo na mão, ê vida mais ou menos! No que toca essa música que vocês estão ouvindo, esse clássico de Aldir Blanc, levanto os olhos do jornal. Um portal, que conheço muito bem, se abre na minha cabeça. Uma idéia entra em gestação.
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Nisso, toca a campainha. Vou abrir a porta e... surpresa! Era o Tempo vindo me visitar.
- Ora, ora...Quem é vivo sempre aparece! – exclamo com alegria.
- Se não matam o tempo, eu estou sempre vivo... – ele me responde sorrindo.
- Por favor, entre! A que devo a honra?
- Eu estava passando...
- Sei...O Tempo passa... – interrompi.
Ele fingiu que não percebeu a piada infame.
- ... e resolvi vir te fazer uma visita rápida... Se você tiver tempo, é claro.
Retribuí na mesma moeda, ignorando a gracinha dele.
- Toma alguma coisa? – perguntei, amigável.
- Tempo não toma...Os outros é que tomam tempo... – respondeu, com um sorriso cínico afivelado na cara de pau.
- Huummm...Bem humorado. Gosto disso. Mas o que fiz para merecer sua amável visita?
- Vim lhe agradecer. Você tem me dedicado muito tempo...
- Ah, muito obrigado. Faz tempo que não ouço um agradecimento tão sincero...
- É de coração, pode acreditar.
- Tenho mesmo escrito sobre um de seus filhos...
- O Passado....É...ele é o meu mais velho. Me dá mais alegrias que tristezas.
- A mim também. Que coincidência. De seus outros filhos, o Presente e o Futuro, eu também gosto. Mas você entende, minhas afinidades são com o Passado...
- Entendo, é claro. Meu filho do meio, o Presente, também é ótimo. Mas vive com pressa. A gente quase nem o percebe...
- O seu caçula eu nunca vi...
- Ah, do Futuro ninguém sabe, não é?

Resolvo provocar o Tempo.
- Você tem algum preferido?
- Não...São todos partes de mim. E não se deve rejeitar o que faz parte de nós, não é?
- Bem, há algumas partes de mim que estão me rejeitando. Por pura rebeldia. Meus cabelos, por exemplo. Estão muito rebeldes. Eles estão se rebelando e me deixando. Sinto que estou perdendo eles aos poucos. Você tem algum conselho para lidar com essa situação?
Ele riu gostosamente.
- Não, não... Nem tenho tempo pra isso. Já vou me botando.
Protestei.
- Mas já? Fique mais um pouco!
- Je m’en vais...
Levantei-me para abrir a porta e quando fui ver, o Tempo tinha passado e eu nem percebera.
Naquele momento, a Nana cantava:
“No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso
Ele não vai poder me esquecer.”
*
Desculpe, caro Aldir, mas eu não posso esquecer o Tempo de jeito nenhum. Ele também é parte de mim...
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo a querida Nana Caymmi, cantando “Resposta ao Tempo”, de Blanc e Cristóvão Bastos.
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Gostaria de agradecer muito às amigas Claudinha, Márcia, Ana Carla, Saramar, Luma, Vendetta e Yumi, que toparam responder ao meu convite em seus blogs com textos belíssimos (recomendo todos a todos!) e aos que responderam no meu próprio espaço de comentários. Nada como lidar com gente talentosa...

28 comentários:

Lena Gomes disse...

Olá! Sinto que vou ser a primeira... quanta honra. São 6h23 da matina, vou trabalhar dentro de alguns minutos, mas não podia deixar de comentar. Li o post. Mais um dos seus magníficos. O texto do tempo, é seu? Já li algo parecido, mas não me lembro se era igualzinho, por isso a pergunta. De qualquer forma, é genial. Me transportei pra sua história... Estou precisando muito fazer o que vc faz: escutar o cabelo crescer... aliás, adorei isso desde a primeira vez q li, por aqui. Parabéns por saber exatamente o que fazer da sua vida. É uma inveja sadia, que eu tenho. Boa semana! Beijos.

Ana Carla disse...

Marco, que delícia de texto!!! Esse é daqueles que me faz perguntar "Como não fui eu que fiz?" rs... Qualquer dia também vou escrever minha Ode ao Tempo! Um beijo bom, uma boa semana... e veja se responde lá minha perguntinha! rs...

Roby disse...

Marco bom dia!!
Nestas últimas semanas não poderei ouvir meu cabelo crescer...
Faltam 15 dias pra nossa viagem ao Brasil (imagine a correria)..nem se meu cabelo cresceria em tom de Heave Metal ..rs
*
O tempo, ai ai..o tempo é traiçoeiro, quando pensamos que o temos, lá sem foi ele....
*
Aquele upa meu querido!

Karine disse...

Que lindo!!! Adorei seu texto... aguçou minha curiosidade (que não é pouca) para ler o blog inteiro... vou te 'linkar'!
Depois volto pra ler tudo... quando der tempo!
Beijo, se cuida!

Pipoca disse...

Marco Querido, não consegui ainda blogar teu pedido, por favor, me dê mais um tempinho :-). Pra variara, teu texto me fez chorar...de rir! Um beijo da tua mais apaixonada das amigas apaixonadas. (juro que vou blogar em breve!!!)

suzy disse...

Querido, estou precisando também de um diálogo com o tempo, tenho algumas coisinhas para lhe dizer, mas acredito que ele anda meio bravo comigo. Certa vez postei em meu blog dizendo que se tivesse um bichinho de estimação lhe colocaria o nome de 'Tempo' somente para ter o prazer de dizer, 'tempo, vem cá'!

Querido, quanto à sua pergunta no post anterior, comigo acontece o seguinte: O mundo fica cor de rosa e eu volto a ser adolescente. rsrs

beijo grande e boa semana

Claire disse...

O passado é o nosso imutável, pois soma tudo q somos; é dele q 'saímos', não é?
Sua descrição do domingo me fez lembrar dos meus dias de folga; quando ficar mais tempo na cama é um luxo só...

Yumi Yabiku disse...

genial genial geniaaaaaaal, amigo!!

Claudinha disse...

Marco, este é um dos melhores textos que escreveu. Genial, profundo. Também gosto dos portais e me apego a eles. O tempo é sábio, mas é cruel. Pode nos encontrar (como na sua reflexão se encontrando com ele), pode nos desencontrar. Ele apenas permite-se, mas não pode ser ignorado ou esquecido. Também me prendo muito ao seu filho mais velho e ao "e se", mas sempre que ele bate em minha porta, quando eu vou abri-la, ele foge de mim... Tento agarrá-lo, mas escoa de minhas mãos. Tento pará-lo nas ampulhetas da vida, mas não consigo. Ele é soberano, ele é infalível. Amei seu texto! Parabéns!

luma disse...

O tempo? Ele é seu amigo,é? pois ele anda de mal comigo, dá sempre as caras, e é sempre correndo.
Domingo construtivo. Estou torcendo pra que chova no que vem, quem sabe assim eu consiga segurar o tempo dentro de casa.
Boa semana! Beijus

M.Eduarda disse...

Adorei o texto, essa música é muito linda. Se não engano era da abertura de Hilda Furacão, ela me remonta a um tempo tão gostoso.

Falando em tempo, na fase que estou vivendo atualmente preciso muito acreditar no tempo, principalmente em sua capacidade de curar feridas e fazer-nos seguir em frente.

beijos

Márcia(clarinha) disse...

Marco,
já que são íntimos avise para que passe aqui para um chá e fique um tempo, pois não consigo mais correr atrás dele feito louca, estou até de rugas feitas pelo safado, aff!
Amei,amei,amei de morrer de rir e de pensar com orgulho: Marco é o cara e é meu amigo,rsss
Linda semana meu anjo,
beijosssssssssss

Dilberto disse...

Amigo... Já quase estava ficando com preguiça para comentar (rs) quando você nos brindou com um encontro tão insólito quanto aqueles dos textos do Woody Allen (com as piadinhas infames incluídas e tudo!): meus parabéns, primão! Muito bom, mesmo, tanto que salvei aqui no computador! Despretensioso e com um ótimo ritmo, ao mesmo tempo! O tempo é nosso - mas, infelizmente, os cabelos já não o são (passo pelo mesmo problema, rsrs)...

Sobre aquela novela de terror, o mesmo comentário meu se aplica a ela: despretensiosa e gostosa ao mesmo tempo, tanto quanto uma novelinha do Marco Rey (lembra dele? Foi inevitável lembrar), também gostei muito!

E sobre a proposta de post coletivo, infelizmente não foi (nem será) possível participar, graças ao tempo escasso (não sei se você notou, mas nem houve reunião da família...), mas o tema é ótimo e infinito de possibilidades... Adorei algumas respostas!

Grande abraço, amigo talentoso e sofredor nos cabelos rareando... Rsrs. Avicys neles!

Cristiano Contreiras disse...

Domingo geralmente eu leio ou passo a tarde dormindo...durmo o domingo o que nao durmo na minha semana toda...rs

luma disse...

O que acontece quando o amor acontece? já respondi no luz. Beijus

Pipoca disse...

Marco, quando tiver um tempinho, volta lá no meu blog que eu te respondi! beijos docinhos!

claudia disse...

Ah...QUE DELÍCIA LER ESSE TEXTO

que delícia...
eu corro amigo, corro contra o próprio tempo, mas eu me dou um tempo de vez em quando...assim como vc. aos domingos...
adoro fazer isso...
acho que é um direito adquirido(rs)
de vez em quando...eu me vejo cochilandinho...
sabe estas coisas assim adoráveis...
nada de sonão....
por isso eu digo sempre...
ô mundão, não acaba não...
lindo Marco...adorei mesmo.

beijo grande.

Dira disse...

Marco querido. Ando em falta com os meus amigos, reconheço. Ando correndo muito, trabalhando muito e com tudo muito de problemas. Mas sempre venho aqui te acompanhar, mesmo que quase nunca tenha tempo de escrever algo pra vc. Mas saiba que tenho muito carinho por vossa pessoa. E esse texto, como todos os que escreve são sempre muito doces e transmitem uma paz, uma paciencia que eu as vezes, perco. Te adoro. manda pra mim o seu endereço pra mandar o seu livro quando a Lobinha terminar a produção.
Beijo grande, viu?

Quanto ao seu amigo tempo, sou de mal com ele... Nem ele, nem o filho dele passado são muito amigos meus...rs

Janaina Staciarini disse...

Adorei o texto... muito. Eu vou ler tudinho daqui...

ronie disse...

Nasceu, nasceu... vixe foi mal! Nem li o texto.

Daniela Mann disse...

Passei para deixar um grande abraço! Já não passava por aqui há algum tempo...
Beijinhos

Mutatis Mutante disse...

Cara , post perfeito seria se não fosse a minha estranheza quanto à voz da Nana Caymmi e a esta música , que pra mim não é digna das parcerias que Blanc fez com Bosco...

Abração!

Saramar disse...

Marco, boa noite.
Devo dizer da minha reverência crescente em relação a você.
Sempre se supera, na beleza, na poesia e na perfeita construção desses antológicos textos.
Já adquiri o vício de ficar horas por aqui, lendo e relendo.

Obrigada pelo privilégio.

Beijos
P.S. Quando canto, em alguma festinha de amigos, sempre me pedem para cantar essa música maravilhosa.

Samara Angel disse...

oie meu querido,fiquei emocionada com seu texto,o tempo,acho que é um inimigo de todos,rsss.só nao entendi quando vc diz escutar seus cabelos....rss,me explica ta fiquei curiosa,mas vim deixar um carinho e ler suas antigas ternuras com muito carinho,desejo uma linda noite ,bjssssss

Marco Santos disse...

Gostaram, né? Legal...Agora é TEMPO de responder aos comentários:

Doce Helena: Que bom vê-la por aqui. Espero que você também se acerte com o Tempo para poder aparecer mais vezes.
Sobre a sua pergunta, sim, o texto é meu. Eu não assinaria um texto que fosse dos outros. Não cometo plágios, nem roubo idéias dos outros (as minhas já são muitas e suficientemente complicadas...). Eu tive o insight para escrever este texto ouvindo a música "Resposta ao Tempo". Minha idéia foi escrever uma resposta ao "Resposta ao Tempo", do Aldir Blanc. Se você prestar atenção na letra da música verá que o meu texto tem a ver com ela.

Querida Ana Carla: Eu tenho certeza de que a sua Ode ao Tempo será magnífica! Fico feliz por você ter gostado.

Querida Roby: Está vindo visitar a terrinha? Ih, então está na hora de se acertar com o tempo! Bom retorno!

Querida Karine: Prazer em tê-la aqui em minha cristaleira de velhas emoções. Venha quando quiser. Em breve eu retribuirei a visita. Ainda não o fiz por que estou esperando uma nova visita do Sr. Tempo...

Querida Vendetta: Vou lá ler o seu texto, que imagino ser brilhante, como tudo o que você faz.

Querida Suzy: E quem não gostaria de domesticar o bichinho chamado Tempo? Mas não tem jeito. Ele é selvagem e não aceita coleira.

Cara Claire: Se tem uma coisa que eu prezo nos meus domingos é o escutar cabelo crescer, estirado no sofá. Dormir bastante, ler jornal de ponta a ponta...Muito bom, não é?

Querida Yumi: Você gostou, parceirinha? Puxa, fico muito, muito contente!

Minha doce Claudinha: O Tempo gosta de se fazer difícil. Ele parece se divertir com isso! E tanto os filhos dele como seu sobrinho dileto, o "E Se..." parecem puxar ao parente. Eles nos pregam peças! E como gostaríamos de mudar algumas coisitas ao nosso bel prazer, não é? Seria tão bom se nossas vidas tivessem um controle de Videocassete...Apertar o Rewind e rever/refazer algumas passagens, clicar no fast foward para deixar pra trás momentos difíceis...Pois é.

Querida Luma: O Tempo não é amigo de ninguém, meu anjo. Quando a gente pensa que pode contar com ele, eis que o cara se ri e passa batido!
Já li e comentei a sua excelente resposta à pergunta que não quer calar.

Querida Maria Eduarda: Sim, essa música esteve na trilha de Hilda Furacão. Mas também é música-título de um CD antológico da Nana.
Espero mesmo que o Tempo se digne a curar os seus machucadinhos. Ele costuma ser um ótimo médico...

Doce Marcinha: Acredite que o meu orgulho de ser seu ex-vizinho e amigo virtual que você pode contar sempre que quiser é muito maior. Já falei que quero ser que nem você quando crescer, não é? E é verdade!

Grande Dilberto: E aí "primo", companheiro de batalhas contra a rebeldia de nossos capilares? Você usa esse remédio? Dá certo? Eu estava pensando em usar Super Bonder...
Que legal que um escritor de mão cheia como você tenha apreciado o meu texto. Fico orgulhoso por isso.
Sim, conheço o Marcos Rey, autor de "Ópera de Sabão", entre outros. Mas quem sou eu para ser comparado a ele...
Claro que eu notei que não teve reunião da "Família Morcegos"!! Mas faremos em julho uma de arrasar!

Grande Cristiano: É...descansar aos domingos é muito bão!

Doce Claudia: Que felicidade, saber que você gostou do meu despretensioso texto! E nada como escutar nossos cabelos crescendo na paz dos domingos, não é?

QueriDira: O empo não costuma ser amigo de ninguém. A gente é que corre atrás dele em busca de uma intimidade que nunca teremos. Sei que você está em fase de restabelecimento. Sei, e tenho certeza disso, que o Tempo vai te ajudar muito nesta tarefa.

Querida Janaína: Prazer em tê-la por aqui. Irei retribuir a sua amável visita tão logo o "meu amigo" me dê uma chance!

Grande papai Ronie: Nasceu a Isadora???? Mas me conta isso, rapá!! Vou te escrever.

Um abraço grande pra você também, Daniela!

Grande Mutante: Você não gosta da Nana nem de "Resposta ao tempo"? É...Respeito sua opinião. Mas EU GOSTO!

Querida Saramar: Ah...Temos mais uma cantora por aqui...Que bom! Agradeço pelos elogios, especialmente vindo de alguém que escreve bem pra caramba! Também gosto muitão de te ler. Retribuo a reverência.

Linda Samara: "Escutar cabelo crescer" é uma expressão que criei como sinônimo de "pensando na morte da bezerra", ficar sem fazer nada, só pensando na vida, ficar bestando, estirado no sofá...Entendeu?
Que bom vê-la sempre por aqui. E se gosta dos meus textos, fico super feliz. Você é uma gracinha de pessoa.

Valeu, moçada! Abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim!

Pipoca disse...

Obrigada, Marco! Teus elogios me enchem de orgulho, isso sim! beijões, beijões e abraços apertados!

Giulia disse...

Que beleza de texto esse, querido amigo! Gosto muito de falar e ouvir sobre o tempo, presente e passado... Mas, ainda não consegui ouvir o cabelo crescer... (só cair, por enquanto!) rsrs... Beijos

Dira disse...

te amo, mocotó, por entender esse meu momento.