terça-feira, junho 27, 2006

Uma noite com Jerry Lewis

Antigamente, eu tinha um círculo de amigos que estava sempre se reunindo. Saíamos para a gandaia, ríamos, os que bebiam, enchiam a caveira... Hoje, o grupo está afastado. Quase todos casaram (uns descasaram e casaram de novo), têm filhos, uns foram morar em outro estado e até em outro país. Mas as antigas ternuras que vivemos juntos ficarão pra sempre na lembrança.
*

Mas eu queria falar de um determinado amigo. Vamos chamá-lo de Jerry Lewis. Pois é. O cara era muito tímido, não conseguia arranjar namorada nem fazendo simpatia (eu também não, mas isso não vem ao caso...). Pois um dia, o cara apareceu numa de nossas reuniões dizendo:
- Pessoal! Chamei uma garota pra sair e ela topou!
Festa na torcida. Fizemos até hola. Afinal, o Jerry tinha tirado o pé do lodo. Mas ele advertiu:
- Olha só, moçada: a moça é evangélica. Não suporta ouvir palavrão. Vocês vão ter que se segurar.
E falou essa última frase olhando pra mim. Bem, não sei se vocês já perceberam, mas eu gosto de dizer umas gracinhas... E até admito que algumas piadas do meu repertório fariam corar um palmito.
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Mas tranqüilizei o Jerry. Que ele ficasse na paz, que eu me comportaria como um lorde inglês do Século 19. Os demais também prometeram segurar as pontas. O Jerry podia trazer a moça que nós seríamos como anjinhos barrocos de igreja mineira. E marcamos um dia para sairmos todos juntos. Era a chance de conhecer a nova namorada do cara.
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Na tal noite, estávamos todos na casa de um casal do grupo, quando o Jerry chegou, sozinho. Tinha vindo antes, para novamente implorar que nos comportássemos, que ninguém falasse um palavrãozinho sequer. “Tudo bem. Jerry! Confia na gente!” Ele nos olhou com uma cara de “hum, num sei, não...” Mas, os dados já estavam rolando. Pouco tempo depois, chegou a moça. Ela se chamava Denise, acho.
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Naquela noite, parecíamos velhinhas inglesas, tomando chá no Rotary Club. Conversamos sobre a paz mundial, sobre desenhos da Disney e até sobre como era gelada a Sibéria. Jerry se esmerava em atenções:
- Amor, quer mais guaraná? Quer que eu prepare um queijo quente pra você? Quer mais uma almofada?
Aquela melosidade, aquele açúcar todo causaria cárie até em dente de alho! Mas o amor deixa a gente assim, fazer o quê...
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Dali, decidimos ir para um barzinho, ou para o boliche...Um programa digno do “Jardim de Infância da Titia Teteca”. Distribuímos as pessoas pelos carros, iríamos eu e mais dois no carro do Jerry e Denise. Os demais, num outro que nos seguiria.
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Acreditem: o Jerry, todo solícito, abriu a porta do carro pra moça, que estava encantada com aquele namorado tão gentil. Os três canalhas foram no banco de trás, cheios de frufrus:
- Você primeiro, caro amigo...
- Não, por favor! Eu insisto, entra você...
- Ah, muito obrigado!
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Todos dentro, Jerry liga o possante e vai olhar se o outro estava por perto.
PLAFT!
Ele tinha esquecido de baixar o vidro do carro e deu com a fuça na janela com toda força. Em seguida, abriu o verbo:
- P(@#$%&*) QUE PARIU! CAR(*&%$#@)!! POR(@#$%&*)! VIDRO FILHA DA P(*&%$#@)!!!!
*

A cada palavrão que ele vociferava, a moça mais se encolhia no banco, os olhos esbugalhados, ameaçando sair das órbitas e fugir rolando pela rua. No banco de trás, tinha gente virando cambalhota de tanto rir e um pediu para abrir a porta, porque já estava quase se mijando...O que não ajudava nadinha, nadinha aquela situação.
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Jerry percebeu o que tinha feito e tentou se desculpar, segurando no braço da moça. Ela se encolheu mais ainda, como se a mão dele fosse uma perna de barata cascuda.
*
Silêncio no carro.
Só se ouvia o motor.
No banco de trás, um não podia olhar para a cara do outro, se não explodiria em riso.
Antes de chegar no barzinho, Denise disse que estava com dor de cabeça, que não nos importássemos e fôssemos pro boteco, que ela pegaria um táxi pra casa. Jerry ainda tentou contemporizar:
- Eu te levo em casa.
- NÃO! Não precisa, obrigada...Eu pego um táxi, olha, já tem um ali. Desculpe. Depois a gente se fala.
E saiu rápido antes que a gente a segurasse ali.
*

Olhamos para o Jerry. Ele disse:
- Ah, dane-se!
Na verdade, ele falou uma outra expressão parecida com essa. Relaxamos. Quando o outro carro emparelhou com o nosso, avisamos:

- Mudança de planos! Vamos para a Zoom, chacoalhar o esqueleto!
*
E dançamos a noite inteira músicas como essa que vocês estão ouvindo.
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Hoje, o Jerry está casado, pai de duas meninas lindas. Além dessa, teve outras histórias hilárias. Se vocês quiserem, eu conto.
Depois, ainda perguntam porque eu vivo rindo...
M.S.
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Na Rádio Antigas Ternuras, você está ouvindo “Never Can Say Goodbye”, no balanço de Gloria Gaynor.

18 comentários:

Claudinha disse...

Marco! Mui amigo! Coitadinho do moço! Mas eu fiquei aqui lembrando de tantas e tantas que passei, escondendo de meu pai,pulando a janela, um dia eu conto no blog. Adorei rir com a infelicidade do pobre Jerry... Mas Marco, não sei porque isto me lembrou um certo amigo da onça... rsrsr.
Beijos!

Cristiano Contreiras disse...

Jerry é altamente contagioso!

ah sim, tenho uns filmes dele aqui...

sim, estás linkado lá!

Roby disse...

Eitaaaa que quem prega moralismo sempre se dá mal né Markito?? rsrs
Mas no caso de Jerry, ele queria era impressionar a mocinha...tadinho..rs
E lascou o verbo "mermu" hahahahha.
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Bjão kilido..
Hoje fiz pudim..gostas??

Roby disse...

Ahhh esqueci-me de te contar no comentário anterior..
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Meu mano tinha uns 17 anos, queria impressionar a namoradinha, tirando umas fotos cheia de pose...
Eu fui a fotógrafa...rsr
Só que ele frisava bem, que eu não podia pegar os pés dele...
A foto tinha que ser somente de meio corpo.
*
Finalmente depois que foram reveladas as fotos,...apareceu meu mano, todo nos trinks e com os pés descalços...rsr
Só de meias pretas...hahahhah
Ai ai...só de lembrar eu morro de rir...
Tenho esta foto aqui comigo até hoje!

Ele ficou fula né?!!! rs

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Aquele upa querido..

Giulia disse...

Amigo Marco! Uma 'saia justíssima', numa situação divertida...rsrs Feliz de quem tem histórias assim para contar e mais feliz ainda quem pode lê-las ou ouví-las.Beijos

Pipoca disse...

Conta, conta, conta!! Conta mais!!! ai, que delícia ler você e sorrir! Um beijão estalado, Marco.
Adoro suas histórias..

Ana Carla disse...

Rsrsrsrs... conta, conta mais!! Não para não!! Mais do que Sherazade, conte 1002 histórias boas, de fazer a gente esquecer até das dores de amores!! Um bom dia, Marco!!

Carla disse...

Conta mais, conta!!!
Se vc não para de rir, divide o sorriso com a gente...

Gosto muito das suas histórias!!

Beijos

Luna disse...

Moço, adorei as palavras e destaque... Por isso que eu diga, seja sempre o que você é... Sem disfarces ou enigmas... O risco é menor...
Se bem, que sendo egoísta... É bom que esas coisas aconteçam para que a gente se divirta com os contos futuros.
Beijos e abraços...
Luna

Márcia(clarinha) disse...

Marco querido,
ri tanto das desventuras de Jerry&Cia, amei saber que ser meloso demais dá cárie em dente de alho,rsssss.
Você tem histórias pra mais de metro,ótimas...
Linda noite querido,
beijossssssssssss

M.Eduarda disse...

Adorei a história ehehehe

beijos!

Dilberto disse...

Rapaz, adorei essa! Confesso que pensei que se tratasse de uma homenagem ao mestre Jerry Lewis, ídolo de minhas comédias de infância, mas foi legal a alegoria! E é real esta estória? Rs. Mesmo previsível o final, a forma de contar garantiu o humor e a atenão, muito bom mesmo!

Amigo, em breve te mando o link para Na cadência do samba (quero créditos no post sobre Canal 100, hein?! Rs. Aprendi a amar futebol com aqueles programas!), cortesia do primo!

claudia disse...

mas quanto aprontar hem!!!
dava um livro não amigo...rs
coitado do moço.
Ah...estas coisas não dão certo mesmo...rs..sabe o que eu falo, ninguém engana todo mundo sempre...uma hora a casa cai.
a dele desmoronou na mesma noite...rs

um beijo grande

luma disse...

Padeço desse mal Marco; Tenho crises de risos homéricas e justamente nos lugares impróprios. Essa situação que apresentou, eu estaria roxa.
Zoom! imagino o Marco Travolta! (rs*) Beijus

Fugu F. disse...

Marco, meu querido. Vocês eram todos uns amigos da onça mesmo. Então, iam deixar o pobre rapaz namorar uma menina evangélica? Ainda bem que tio Freud livrou-o desta. Fiquei imaginando seu amigo feito o Professor Aloprado depois de tomar a poção mágica ... beijo você!

Yumi Yabiku disse...

AUHAHUAHUhuahuauhUHAUHAAHUHUAUH ai, coitado do Jerry!! olha só, Marco, meu primeiro nome é Denise, sabia?! aauhUHAUHuhauhahu um bjooo

Marco Santos disse...

Bem, amigos do Antigas Ternuras...Então vocês querem mais aventuras do Jerry Lewis, não é? Vamos ver isso... O cara existe mesmo, obviamente não tem esse nome que eu não vou queimar o filme dele... Vamos aos comentários.

Minha doce Claudinha: Durante muito tempo adorávamos contar as estripulias do Jerry como se estivéssemos contando uma piada. Ele ficava meio chateado. Principalmente quando contávamos para gente estranha e na presença dele. Depois, relaxou.

Grande Cristiano: Já te linkei também. Valeu!

Querida Roby: Coitado do Jerry...Tava tão a fim de arrumar namorada que fez o maior esforço para agradar àquela... mas hoje ele está muito bem, pode acreditar. Adorei o seu pudim de laranjas!
Rá! Rá! Rá! Você aprontando com seu irmão, heim? (Mostra a foto pra gente?)

Querida Giulia: Ah...Eu tenho mesmo muitas histórias...E cara de pau para contá-las aqui pra vocês!

Eu conto! Eu conto! querida Vendetta! Que bom que você gosta de me ler porque eu também adoro ler seus textos!

Querida Ana Carlinha: Ré! Ré! Ré!...Essa de Scherazade...Nunca me chamaram assim...Ré! Ré! Ré!...Mas se ela foi uma grande contadora de histórias, eu tenho mais é que me sentir honrado com tal comparação. Pode deixar que eu vou contar mais aventuras do nosso herói.

Conto, Carlinha, pode deixar que eu conto! Legal você ter aparecido por aqui. Sinto falta dos seus comentários.

Querida Luna: Prazer em tê-la por aqui, em minha cristaleira de velhas emoções. Já fui te visitar e gostei muito de seus textos. Volte sempre que quiser ouvir um causo.

Querida Marcinha: Gostou, né? Pois é. Eu também faço umas melosidades assim de cariar vários dentes de alho!
Tenho, sim, quilômetros de histórias! Ré! Ré! Ré!...

Que bom que gostou, M. Eduarda! Vou te retribuir a visita e com o maior prazer!

Grande primo Dilberto: O cara existe e a história é real. Achou o final previsível? OnJerry não achava, não! Ele estava preparado para uma grande noite com a namorada! E nós estávamos dando a maior força. Não foi por nossa culpa...
Pode deixar que eu dou os créditos do Na cadência do samba...

Querida Claudia: É...eu e meus amigos aprontamos algumas, sim...Que bom, né? Por conta disso, temos estas histórias hilárias pra contar.

Querida Luma: Eu tenho um problema sério! Se eu acho uma coisa engraçada, eu gargalho alto, sem nenhuma culpa. Mas se não acho graça, a minha cara diz tudo.
Já até imagino você se arroxeando de tanto rir...Ré! Ré! Ré!...

Querida Fugu: O cara tava doido pra tirar o pé da lama! O que viesse seria lucro! Esse amigo caiu num caldeirão de poção aloprada!

Ah, parceirinha...Adorei saber que você se chama Denise...Ré! Ré! Ré!...

Valeu, moçada! Abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim!

Anônimo disse...

Putz, to atrasada, mas antes tarde do que nunca ... e aí Marquito, o Jerry já leu esse blog ? o que ele achou ? affff ... e tem histórias pra contar do nosso amigo ... ops, não era pra divulgar isso ? vixe, acho que agora ficou fácil pros amigos saberem quem é o nosso amiguinho atrapalhado .... kkkkk .... mas, sem ele, não teríamos tantas histórias pra rir né ? valeu as lembranças de uma bela época !!! beijão