quarta-feira, abril 19, 2006

Todo dia era dia de índio


Em abril de 1989 eu trabalhava na assessoria de imprensa, mais especificamente no jornal interno. Na reunião de pauta, sugeriram uma matéria sobre o dia do índio. Eu lembrei de um texto que tinha escrito um ano antes, mais ou menos, logo que eu tinha chegado lá, depois de ter passado no concurso interno. A editora leu, gostou e publicou.
A matéria é muito grande para postar aqui. Mas, fiz uns “melhores momentos” só para os leitores do Antigas Ternuras. Hoje é o Dia do Índio. Deram um dia para eles (que só as escolas primárias comemoram...)e ficaram com os outros 364 para os “civilizados”.

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Foi preciso Jorge Ben – neto de índios pelo lado materno – cantar em prosa e samba as desventuras do povo indígena, para que fosse lembrado que nem só de 19 de abril vive o índio.
Comemorado em todas as Américas, o Dia do Índio foi escolhido por decisão do Congresso Indigenista Interamericano, reunido em Patzcuaro, no México em 19 de abril de 1940. O representante brasileiro foi o antropólogo Edgard Roquete Pinto, o mesmo que fundou, na década de 20, a primeira estação de Rádio no Brasil.
(...)
Os primeiros colonizadores portugueses utilizavam larga e fartamente a mão-de-obra indígena como escrava. Simão de Vasconcelos, fidalgo português, narrou certa vez ao rei “que os índios da América não eram tratados como verdadeiros homens. Poder-se-ia servir-se deles como de um boi ou de um escravo, feri-los ou maltratá-los”.
O jesuíta Frei Bartholomeu, em carta à sua Congregação, contou que os colonizadores “chegaram a sustentar seus cães com a carne dos índios, que matavam e faziam em pedaços como a qualquer bicho do mato”.
(...)

Ao contrário do holocausto judeu, pouquíssimo se escreveu sobre a matança indiscriminada da população indígena aqui e no resto do mundo. Um dos mais antigos autores que escreveu sobre o Brasil, o abade francês Durand, relatou que em toda a Bacia amazônica e ao longo da costa, os índios “eram tão numerosos que pareciam enxames de mosquitos”.
Hoje, ao contrário dos insetos citados, que multiplicaram a sua população, o índio em seu estado mais puro (sem sandália havaianas short Adidas), tornou-se espécime somente encontrado em restritíssimos santuários.
(...)
Compulsoriamente, o índio foi perdendo o direito á sua religião, à sua terra, à sua organização social. (...) Hoje ele tem que se comprimir cada vez mais em faixas de terreno cada vez menores. Hoje, ele só tem o dia 19 de abril. Ou nem isso.
M.S.

11 comentários:

Dra. Daniela Mann disse...

Gostei muito deste blog e tinha muito prazer em ter o seu link, mas como no meu blog são os visitantes que se linkam, caso seja da sua vontade, vá até lá e adicione o seu espaço. Para tal, basta clicar no logotipo do "páginas amar-ela", que fica ao fundo da coluna à direita.
Um abraço amigo,
Daniela

Claudinha disse...

Super Fantástico Amigo... Muito bem lembrada esta ternura. Eu aprendi muita coisa com os índios tupis-guaranis. Minha bisavó materna. Com ela aprendi a colher as plantas medicinais, aprendi a gostar de fazer remédios. Ela morava lá perto da igreja do pilar em Ouro Preto. Numa época em que se internavam os portadores de down e se tratava tudo com choques, ela criou meu tio avô com o maior amor do mundo e ele faleceu aos 67 anos, trabalhando em sua horta medicinal e tocando violão. Contra tudo e contra todos, inclusive o marido português intolerante. Ela me ensinou também que "Cada fruta tem o seu tempo certo de amadurecer" e eu aplico isto até hoje e passo para meus alunos. Com isto superei o fato de nunca aparentar a idade e sempre ser rejeitada pelas moças e moços da minha idade. Hoje eu adoro não aparentar a idade que tenho, mas isto já foi um grande problema. A paciência e a sabedoria de vida dela, me dão a verdadeira dimensão da crueldade que foi feita com eles, os verdadeiros brasileiros. E para você fica, em troca desta linda homenagem, Nozãninã orekuá, kuá, azá etê, etê... Nozãninã... (uma cantiga de ninar que ela me cantava sempre, ela faleceu depois do meu avô-seu filho-, quando eu tinha 9 anos... Um beijo grande e por ela lhe digo, muito obrigada!

Zeca disse...

Marco,

gostei muito do seu texto! Mostra que, há muito tempo você tem o dom do bom uso da palavra.
Bem lembrada a canção do Jorge Benjor, como talvez uma das melhores homenagens aos índios.
Infelizmente os últimos sobreviventes já não conseguem segurar a aura de ingenuidade e inocência, perdida pela contaminação provocada por outras raças dominadoras e ambição desmedida.
Hoje (muitos deles) usam sandálias havaianas, calções adidas, óculos de sol e até dirigem caminhonetes poderosas, em troca de madeira e outras riquezas contidas em suas reservas.
Também os vícios trazidos pelas outras raças os contaminaram e levaram embora qualquer resquício de identidade.
Há ainda os que, desprotegidos e desprovidos de riquezas naturais, vivem pobremente de um pequeno artesanato vendido na beira das estradas.
Hoje é necessária a existência de um 'Dia do Índio' para que se lembre que eles (ainda) existem!

Grande abraço,

Mut disse...

Sinceramente , a única coisa que me fez lembrar do dia do índio foi o aniversário da minha ex-amiga. Pelo menos você me fez lembrar da data de uma maneira feliz.

Um abraço!

Marco Santos disse...

Pois não, Dra, Daniela. Será um prazer visitar o seu blog e deixar lá um link para a minha cristaleira de emoções. obrigado pela visita e volte quando quiser.

Claudinha, minha querida curuminzinha. O cara-pálida aqui desconhecia o seu sangue índio. Eu acho uma indignidade quando vejo índios mendigando comida e dinheiro nas estradas do Brasil.
Teríamos tanto a aprender com eles...
Imagino que esta canção de ninar seja mui linda. Um dia você canta ela pra mim. Prometo que não vou dormir. eu que agradeço à sua bisavozinha por ter gerado descendentes que trouxeram você à vida para a nossa alegria. Beijo com o nariz sujo de urucum.

Grande Zeca: Fico feliz por você ter gostado do texto. Tudo o que você escreveu está certíssimo. Talvez o maior crime dos brancos contra os índios tenha sido descaracterizar a sua cultura. sem contar as perversidades perpetradas pelos dominadores. Um forte abraço!

Marco Santos disse...

Ex-amiga, caro Bruno? Por que? Brigaram? Um abraço!

claudia disse...

Acho que nem o 19 de Abril mesmo, querido, fui fazer um trabalhinho de escola sobre o dia do índio com minha filha, e olha...tenho muitas e muitas revistas...e ficamos folheando por horas...acredita que só consguei encontrar índios de adidas e tenis?
Pois, acredite...e tem mais, os que não estavam vestidos estavam de arma na mão.

Fiquei triste...

Claire disse...

Um missionário protestante do século XVIII, David Brainerd, observou em certo diário o amor que os indígenas tinham pela liberdade ("São capazes de morrer em cativeiro"). E pelo q li isso aconteceu muito. O negro parece ter tido uma capacidade de adaptação maior; mesmo abusado, ele resistiu. O índio (segundo alguns registros) morreu freqüentemente quando sem liberdade. Não cabe aqui decidir o q é "melhor" ("melhor" é ser livre) - mas julguei interessante as observações de Brainerd...

Dira disse...

A história do ìndio, é muito mais triste que a do negro. Esse segundo, pelo menos, teve mais sorte e mais chance.

Beijo pra tu. Bom feriado, fantástico amigo.

Paulinho Patriota disse...

Mano Marco:

Todo dia deveria ser dos donos do Brasil: eles que não se deixaram escravizar tão facilmente.

E quantos termos indígenas se nos habitam?

Mas Policarpo Quaresma tinha razão?
Bela língua dos aborígenes ao Brasil! E desvairou por causa do tupi-guarani...

Perdoai minha sucintez textual,meu caro.

Um abraço nostálgico.

Marco Santos disse...

Claudia: É, querida amiga, os brancos estão conseguindo matar com a cultura indígena. Tente pesquisar na Internet. Se você botar no Google a palavra "kuarup" certamente você vai achar imagens interessantes, diferente do esquema rayban, short adidas e havaianas.

Claire: O negro se "adaptou" com mais facilidade por estar em terra que ele desconhecia. Inicialmente, se ele fugisse não saberia nem para onde ir. A escravização indígena não deu certo por diversas razões. É meio complicado falar disso aqui em apenas um comentário. Mas não devemos tomar os índios como uma nação única. eles eram (e são) diversos. Pedro Álvares deu sorte de ter aportado em área dos tupiniquins, que eram de natureza dócil. Se ele tivesse aportado mais abaixo, terra dos ferrozes goitacazes, ou mais ao norte, domínio dos caetés ou dos potiguares, ele teria o mesmo destino do bispo Sardinha. Realmente não dava para escravizar estas nações. Foi preferível, para os portugueses, exterminá-los e da forma mais torpe possível.

Dira: Não saberia dizer qual raça teve destino mais triste. Independendente da cor, eles eram seres humanos, logo, repletos de boas e más características. Os brancos, por sua conduta etnocêntrica de se acharem os melhores, se arvoraram no direito de cooptar as duas raças. deu no que deu...

Paulinho: É bom tê-lo de volta. Espero que esteja tudo bem contigo. Sobre a língua indígena (o tronco tupi-guarani), é curioso, mas sempre sinto uma sonoridade melancólica quando a ouço. Huum, só aí já dava uma tese!

A todos, um ótimo feriado! Fiquem com Deus!