quarta-feira, abril 26, 2006

Deus e o diabo na terra do "Self"



Vou logo avisando: este texto é polêmico. Não sei vocês, mas por mim tudo bem.
Dia desses estou zapeando com o controle remoto da TV quando passo por um canal onde um pastor evangélico estava pregando. Normalmente eu passaria batido, clicando a próxima emissora. Mas teve uma coisa que me chamou a atenção naquela pregação. O cara falava: “porque o diabo está à nossa volta!...”, “porque os dardos inflamados do diabo...”, “porque o diabo conhece as nossas fraquezas...”

Era uma pregação evangélica. Um pastor levando, o que se costuma dizer como, “a palavra de Deus” aos ouvintes. Peguei um bloquinho e comecei a marcar quantas vezes ele falava a palavra “diabo” e quantas vezes ele citava Deus ou qualquer variação (Senhor, Pai etc.)
Deu diabo, goleando Deus por 13 x 7. E isso foi só a partir do momento em que eu sintonizei o canal.
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Nas pregações de padres e pastores costumo observar que eles atribuem ao diabo poderes que, na minha modesta opinião, deveriam ser privativos de Deus. Eu acredito num Deus onipotente, onipresente e onisciente. Não posso, nem consigo acreditar num diabo, ou seja, num “não-Deus” que tenha as mesmas características. Não faria o menor sentido e eu só acredito no que faz sentido, paciência, sou assim. Se Deus pode tudo, está em toda parte, sabe de todas coisas, não consigo aceitar que o que se convencionou chamar como “diabo” tenha essas mesmas características.
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Se eu acredito que o diabo existe? Bem, com as características históricas que a Igreja lhe atribuiu, não, eu não acredito. Por ser um estudioso de História, sei que em determinado momento a Igreja teve que dar à figura do Maligno as piores características possíveis: pata de bode, chifre, rabo em forma de seta, tridente para assar as almas nas chamas do Inferno...
Se não fosse assim, muita gente ia ficar na dúvida sobre qual caminho deveria tomar na hora de escolher que valores seguiriam. Mas, atenção: quero deixar claro que sei perfeitamente da existência de espíritos completamente imersos no Mal e que tentam influenciar os outros a seguirem por determinado caminho que eles seguem. Só não concordo que chamem esta consciência – que creio ser transitória, ou a misericórdia de Deus com todas as criaturas seria uma ficção – de “diabo”, nem que lhe sejam atribuídos poderes divinos.
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Mas, como disse, creio firmemente que o Mal exista, mas não na forma de um ser poderosíssimo que fica tentando as pessoas. Dessa forma, ficaria muito cômodo para quem tivesse cometido erros: basta atribuir a culpa a outros, no caso, ao diabo. Na mitologia judaico-cristã, ou seja, na história descrita no Livro de Gênesis, foi exatamente o que aconteceu com Adão e Eva. Quando Deus pergunta a Adão o que ele tinha feito, a sua resposta foi: a culpa é da mulher que me deu o fruto. Eva se defendeu, dizendo que a culpa foi da serpente que a enganou. Pronto, assim os dois pensavam em se livrar do erro: repassando a culpa. É o que se fez durante boa parte da Idade Média, Renascença e tempos posteriores: botar a culpa no diabo!
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Tenho minha maneira particular de ver essa questão. Na minha opinião, o Mal existe e reside na natureza humana, assim como lá também está a centelha da bondade divina. Deus nos deu o livre arbítrio para escolhermos o que fazer de nossas vidas. Devemos seguir o caminho da Luz de sua centelha ou optamos por dar vazão ao lado maligno que nos perpassa a mente? Isso cabe a nós decidir. E TODOS nós, em determinadas situações, ora optamos por um lado, ora optamos por outro.
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Nessa hora, lembro do conceito de Adolf Adler sobre o “self”, o poder criador de nossa personalidade. Os objetivos de vida são influenciados por nossas experiências pessoais, por nossos valores, nossas atitudes e personalidade. Os kardecistas ainda diriam que nosso estado de evolução espiritual também é determinante na nossa atual personalidade. Portanto, não precisa ser o Darth Vader para optar pelo “lado negro da Força”, muita gente faz isso cotidianamente. E sem precisar do Cão lhes soprar tentações no pé do ouvido.
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Teria muito a escrever sobre o assunto, mas acho que o texto ficaria extenso e muito provavelmente desinteressante para quem vem aqui me dar o prazer de ler. Estas são algumas reflexões a partir de uma observação de um programa dito evangélico, utilizando uma mídia eletrônica, moderna, mas com hábitos e uma forma de pensar absolutamente medievais. É ir na contramão da História. E História sempre será uma de minhas antigas ternuras.
M.S.

13 comentários:

Dira disse...

Amore mio. Concordo com vc em parte. Tenho por pensamento que nem tudo que faz sombra e se mexe na escuridão é o diabo. Se tudo fosse ele, ele seria Deus. E não é. Nem nunca será. As pessoas supervalorizam o diabo e seu poder. No NT, o termo *demónio é usado (63 vezes), Mas no NT os dois termos (Satanás, 36 vezes, e Diabo, 34 vezes), entre outros como acusador, inimigo de nossas almas, satã, satanás,tentador, adversário, malígno, príncipe do mundo, dragão, serpente, ao todo mais ou menos 177 vezes. E palavra "DEUS" aparece 2.658 vezes no V.T. e 1.170 vezes no N.T. num total de 3.828 vezes. Isso tudo pra te dizer que concordo com vc. Por isso que certas pregações na tv eu nem aguento assistir. Mas outras (TV Gênesis) e alguns homens iluminados, eu sento e com amor, escuto o que a Palavra de Deus fala através deles.
Acho que lhes falta o dom da oratória, ou o dom de Deus para falar Dele. Meu carinho. Saudade de tu.

dira disse...

ah, consertando: ele seria Deus em poder. bem lembrado.

Zeca disse...

Marco,

eu concordo plenamente com você. Pra mim o Diabo não existe, apenas o nosso "livre arbítrio", concedido por Deus, para que sejamos senhores e responsáveis pelos nossos "destinos" (outra palavra controvertida).
Acredito também que a Igreja Católica criou a figura do Anjo Caído, para reforçar o sentimento de culpa que ela sempre impôs aos seus seguidores. O mesmo foi feito pelos protestantes, após a Reforma, e agora, pelos evangélicos.
Já o Mal, é uma outra história, talvez digna de outro tão belo post como este.

Grande abraço.

Claudinha disse...

Olá Marco,

Eu tenho aminha crença toda especial e sem saber de seu post havia comentado um livro de nome Éfesos, que narra como o homem deixou de ver as linhas que o ligam as outras coisas e seres vivos pela sua conduta. Creio em Deus ( e como eu poderia duvidar, salva da morte 5 vezes em casos diferentes) com o uma força, uma energia criadora e creio que exista o mal sim, mas não na forma de bode, de chifre, etc. Creio no conceito bem Darth Vader (sou apaixonada por ele) misturando com a genética, em que o ambiente mais o genótipo é que formam o fenótipo, ou seja as características que se manifestam. O mal é o que está 'na boca' do homem, em suas atitudes e nas vibrações baixas. Até mesmo Darht Vader que era do bem, tornou-se mal e foi recuperado. Acredito nisto que todos podemos nos transformar se quisermos, se conseguirmos. E valeu a foto do Brasinha, ele junto com a Luísa e Brotoeja eram revistinhas sagradas em minha estante! Até mais!

Mut disse...

Não sei. Sei que a parte mais legal dos programas evangélicos e ficar zoando os tiozinhos. Não pela religião , mas pelo fanatismo que eles tem... "Ganhei um emprego! Foi Deus" , "Ganhei na loteria! Foi Deus" , chegando ao cúmulo de "Peidei! Foi Deus!"

Um abraço!

Claire disse...

Tb concordo em parte. Mas a Dira já disse o q eu diria, os pontos principais. O resto, diria como vc outro dia no meu blog - vamos pular essa parte.

ronie disse...

Lamentavelmente, os interlocutores do Cramunhão usam uma concessão pública para divulgar sua fé e espalhar sua mentira: não tem outra palavra, é mentira. Aqui em Brasília, o Canhoto bate-ponto todas as quartas, meio-dia. Um Lúcifer de quinta categoria, nem latim o maldito sabe falar.

claudia disse...

Oi Mocinho

Eu acho que nada disso existiria, se tivessemos só uma coisa de verdade : Fé.
Sabe Marco, isso soa meio utópico, porque se vc. olhar para dentro de você...dirá __ Mas eu tenho fé.
Sim, mas as pessoas confundem a fé em Deus... com fé em qualquer coisa.
Nós talvez, por procurarmos "aprender" , nos distânciamos...questionamos as coisas. Mas a maioria, acha mais fácil, aceitar o que outros nos dizem e idolatram e daí, vira um chapéu véio(rs) como dizem aqui no meu bom interior.

Não acredito no Diabo...Isso é um medo que nos colocaram, para nos podar ... nos amedontrar e apenas seguir os padrões...

Olha, fico com minha fé, em crer que Deus está acima destas coisas, que Deus é bom...e está longe de nos querer mal, a ponto de nos castigar com a presença de qq. diabozinho por aí.

Tenha um dia reconfortante de fé.

Ela é um bem precioso, bom, mas você sabe disso.

Um beijo no coração

Giulia disse...

Realmente um tema polêmico... tenho minhas próprias crenças, respeitando as demais, e creio, sim, que exista uma força maior que rege o mundo e as criaturas. E que o ser humano traz em si mesmo essa dualidade bem/mal e com ela trava uma luta constante. O diabo, creio ser uma invenção para infundir medo em não crentes e amealhar almas para para as diversas correntes religiosas, que cada vez proliferam mais. Ótimo e coerente texto o seu, caro Marco. Bjs

Madame disse...

Querido amigo, concordo em número e grau com suas palavras, se sabe história sabe também que pela concepção humana a alma e o corpo deixou de ser uma coisa só a partir da idade média, os gregos achavam que o ser era único, por isso seus deuses eram bons e maus, alguns diriam que esta é uma concepção pagã, eu só digo que é mais real, afinal quem é tão mau que nunca teve um lapso de compreensão, amor ou ternura e quem é tão bom que nunca cometeu uma injustiça?beijos de mim

Isabella disse...

Querido, eu simplesmente adorei o que vc escreveu. Agora, só vc para contar quantas vezes o cara falava diabo... Parabéns por esse blog cada vez mais bacana. Ah! E, pela primeira vez, ouvi que a música do blog é o tema do nosso filme predileto! Beijos.

Marco Santos disse...

E eu achando que este post causaria polêmicas aqui no Antigas Ternuras...

Dira: Huummm, não consegui perceber que parte você não concordou no texto. Quer dizer que alguém fez a estatística de quantas vezes aparece os termos Deus, diabo e demônio na Bíblia? Caraco! Isso é que é disposição!
Já que estamos falando de números, a Igreja botou tanto medo do diabo no povo que acharam que "faria mal" dizer o nome dele e aí começaram a inventar outros nomes. Sabe quanto foram dicionarizados pelo Aurélio? Cem! (Pode conferir). Sim, acredito que algumas pessoas têm o dom de falar de Deus de forma absolutamente iluminada.

Zeca: Além das religiões cristãs, o diabo é citado e temido pelos judeus e islâmicos. Concordo contigo totalmente.

Claudinha: Também estou contigo. Assino em baixo de tudo o que escreveu. Eu simplesmente adorava Gasparzinho, Brasinha, a Bruxa Luísa, o gigante Miudinho e o Gansolino. Não perdia nenhum gibi deles (eram todos do mesmo autor).

Bruno: Rá! Rá! Rá!...O seu comentário me lembrou uma cena de um desenho dos Simpsons...Rá! Rá! Rá!...

Claire: Não deu para ficar sabendo de que parte você concorda e de qual discorda. Confesso que senti uma certa frustração com a falta de uma comentário seumais substancioso, uma vez que voc~e milita como cristã. Talvez você não quisesse polemizar. Mas eu escrevi o texto para despertar a discussão. Mas respeito a sua reserva.

Ronie: O diabo bate ponto em Brasília? No Congresso Nacional, presumo...

Claudia: Você está certa. Também acho que Deus está beeem acima de diabos e coisas assemelhadas.

Giulia: Concordo contigo. Maior é Deus! O mais é invenção dos homens, logo passível de ser mistificação.

Giovanna: E eu assino embaixo do que você falou. Eu não teria escrito melhor.

Isa, a Bela: Ué! O cara ficava lá falando no cramulhão tantas vezes que me instigou a contar, ré, ré, ré!
Eu sabia que você gostaria de ouvir "Somewhere in time" aqui. É ou não é a melhor música do mundo? De vez em quando, dependendo do texto, eu vou mudar. mas sempre voltarei para ela.

Valeu, gente! Abraços e beijinhos e carinhos e ternuras sem ter fim!

Paulo Assumpção disse...

Marco, tenho uma opinião muito semelhante à sua a respeito desta questão.