sábado, março 11, 2006

Uma fábula moderna

Então, todos os aparelhos de TV da cidade foram queimando. Como uma regra em cadeia. Pof, pof, pof...
No início, as pessoas se assustaram, princípio de pânico, ó noite de meu Deus. Depois começaram a rir.
Rir. Rir. Rir.
Riram da cara de susto que fizeram, riram um para a cara do outro. Riram do barulho engraçado nas TV quando tudo queimou, riram no escuro. Riram.

As pessoas começaram a colocar cadeiras na calçada, rindo da barriga doer. Os primos, os tios, os cunhados, todos saíram para visitar as cunhadas, os sobrinhos e as primas. Só para conversar e rir.

Contaram velhos casos, as crianças jogaram búrica, rodaram pião – baianinha, machadinha, pião sereno, pião sarapa – correram no pique-bandeira, garrafão, “sempre que a carniça é nova”, até passaram vagalume na roupa pra ficar brilhando.
Namorados foram para a pracinha, de mãos dadas, beijo na contra-luz da auréola da lua.
Então, os aparelhos de TV voltaram a funcionar. Um a um. A voz metálica, monocórdica, hipnotizante.

E as pessoas voltaram para casa, botaram as cadeiras para dentro, as crianças largaram as fieiras, bolas de gude, bandeiras, apagaram o risco do garrafão, amarelinha, a carniça correu. Os parentes se despediram e prometeram aparecer qualquer dia, mesmo sabendo que nunca mais voltariam.
*************
Eu escrevi este conto (não mudei uma vírgula), cujo nome é “Fricção Científica – Uma fábula moderna”, há bastante tempo. Eu o transformei em trabalho para a faculdade. Tinha de fazer um audiovisual para uma matéria que eu não lembro o nome. Para ilustrá-lo, pedi a dois amigos, Reynaldo Campos Pereira (autor do primeiro desenho) e Sidney Puterman (este era meu colega de faculdade, acho que ele nem lembra dos outros desenhos que ilustram este post) para esboçarem algumas cenas para mim. Depois, na sonorização, fui para a casa do meu outro grande amigo Sergio Coelho onde varamos a noite, escolhendo músicas (“Gente Humilde” foi uma delas, que eu lembro), gravando a locução.
O conto, o trabalho de faculdade... Nossa! O futuro blog Antigas Ternuras nascia ali e eu nem percebi.
M.S.

16 comentários:

Evandro C. Guimarães disse...

O texto e as lembranças foram sublimes, Marco. É por essas e outrs que quando viajo, costumo deixar as tvs das pousadas e imóveis que alugo desligadas. Com tantos lugares legais, papo para jogar fora, e um baralinho para jogar, não vale a pena perder tempo com a TV.

Ronie disse...

Impecável como sempre. Continue assim mestre.

Paulinho Patriota disse...

Grande Marco:

Vou começar com um trecho de tua autoria,um dos mais lapidares e belos que se possa imaginar.

Quando,na contra luz da auréola da lua,eu assassinar minha TV por instantes,voltarei a reler teu fabuloso e emocional conto,sob o fundo musical de "Rio Antigo"...

Esculpida criação tua feita do já-ido,porque essas circunstâncias antigas postas por ti,serão,para sempre,"mito e esplendor",como diria Jorge Luis Borges.

Muito obrigado,meu irmão virtual,pois Você ressuscitou em mim uma relembrança que estava prestes a ir-se embora para o nunca mais: os das brincadeiras de roda das meninas do meu tempo que politonavam,nos longes da minha infância,deixando-nos mais apaixonados ainda nas suas vozes angelicais:

"Pau-Pereiro,Pau-Pereiro
É um pau de opinião:
Todo pau flora e cai,
Só o Pau-Pereiro não..."

...E o limo do tempo se espraia sobre minhas costas

Abração!

Claudinha disse...

O conto mostra o quanto estamos presos à telinha. Mas o fato do Antigas Ternuras ter nascido aí, é o que mais marca este post. O meu Transmimentos de Pensações nasceu antes da época de faculdade. No final dos anos 70, na minha pré adolescência. Eu tenho ainda o caderninho de capa laranja, onde escrevia meus posts, sem saber que muitos anos depois eles estariam publicados e seriam lidos por outras pessoas. Acho que eu não concordaria com isto na época! Tenho muitas histórias, as que chamo Memórias de Borboleta. Quer saber uma de minhas metamorfoses? Então, quando tiver um tempo maior, acesse www.fractais2.blogspot.com e conheça um dos motivos para eu ser uma borboleta e minha esperança ser amarela (esta eu conto depois). Beijo e obrigada pelos elogios.

Mut disse...

Heheheh... tudo voltaria como antigamente. E não é uma fábula moderna , mas sim uma ternura antiga pelas noites de brincadeiras nas ruas.

Um abraço!

Claire disse...

Puxa! Eu tb estou aproveitando algumas das coisas antigas q escrevi e pondo no blog; mas ainda não usei nenhum dos trabalhos de faculdade. É uma idéia. O conto é interessante; tenho pensado nisso, em como certas atividades / modernidades passam a dominar a nossa vida. E esquecemos outras.

Paulinho Patriota disse...

Grande Marco:

Não leve mais em conta. Mas eu sou um caso irreversível de inatenção.

O que me deixa arretado da vida é que não são lapsos técnicos de digitação e sim de colocações,que deixam meus comentários às vezes ambíguos.

Mas eu me emendo - ou darei cabo de mim!... (risos)

PS: e aquelas brincadeiras de roda das nossas primeiras namoradinhas eram noturnas,aí tinha de frisar mesmo.

Desejo um domingo tranqüilo como cisnes para todos.

Marco Santos disse...

Grande Evandro: Na época em que eu escrevi este conto ainda não existia microcomputador, videogame, ainda era possível ver, nos subúrbios, o pessoal das antigas colocando cadeira na calçada para conversar. Hoje a violência urbana escangalhou com tudo. Sinceramente, tenho pena destas crianças que não terão a infância que tive, com tudo isto que descrevi. Hoje, as lembranças são antigas ternuras emolduradas na parede da memória.
Mas você está corretíssimo. Em viagem, não dá para ficar escravizado à ditadura da TV. Sempre há algo melhor para se fazer. Um abração.

Amigo Ronie: Que bom que gostou. Acho que é porque você também pegou esse tempo, não é? Um abração, parceiro.

Paulinho grande Patriota: Eu trago antigas ternuras e você sempre me contrapõe novas ternuras em forma de comentários sempre perspicazes.
A sua lembrança acabou me levando a outra, quando à noite, eu brincava com as outras crianças da vizinhança. Tinha uma menina por quem eu tinha uma paixonite. Quando brincávamos de "passar anel" eu gostava mais por poder ficar por alguns segundos segurando as mãozinhas dela...Ê tempo bão! Um bom domingo e um abraço de irmão procê.

Querida Claudinha, minha mais nova amiga de infância: Na verdade, eu sempre fui cultor de antigas lembranças. Desde pequeno, adorava ficar na sala, ouvindo as histórias que os antigos contavam do tempo deles. Talvez o Antigas Ternuras nascesse dessa minha predileção por ouvir histórias e por saborear a maravilhosa infância que tive.
Certamente irei conhecer os seus Fractais e ainda vou recomendá-la para meus amigos blogueiros. Já coloquei o link para o Transmimento de Pensação. Um grande beijo, bela borboleta e fique com Deus.

Grande Mutante: Acho improvável que você tenho alcançado estas brincadeiras noturnas, que eram comuns ao meu tempo de pirralho. Mas, você está certo. A fábula moderna tem o travo e o gosto de uma antiga ternura. Um forte abraço.

Querida Claire: Tenho certeza de que o seu baú tem tesouros incalculáveis. Vá liberando que a gente está aqui para degustá-los, como fina iguaria que são. Beijo procê.

Paulinho Patriota disse...

Grande Marco:

Com o teu infalível fanal de indicações de espaços supimpas,fui aos três blogs que me aconselhaste.

O do Moacy Cirne,já o conhecia,porém,doido de displicência,não pusera o link dele,coisa que consertei agora.

Rapaz,tu foste aluno dele? Eita inveja mais saudável a minha no exato instante!

Abraço agradecido.

wescley j. gama disse...

gostei do título e principalmente das imagens e dos textos. um abraço seridoense.

Jade Prado disse...

Marco! O-lá! Voltei e completamente postada. Lembrei tanto de vc vendo o Oscar!! E a postagem pro Dia das Mulheres? Belíssima.
Trabalho de Faculdade, o ser sendo crescendo sem saber-se ainda que. Tanta coisa nisso tudo. E a saudade cola junto, claro.
Abraços, amigo! Desculpa a demora... :)*

Marco Santos disse...

Paulinho grande Patriota: Tinha certeza de que você gostaria dos dois blogs da Claudinha mineira e o do meu sempre mestre Moacy Cirne.

Caro Wescley: Puxa! Obrigado pela visita. Eu fui retribuí-la e encontro um baita poeta para o meu grande prazer. Volte sempre que quiser à minha cristaleira de velhas mas sempiternas lembranças. Por minha parte, irei sempre beber das suas águas seridoenses. Um grande abraço!

Doce Jade: Que bom que você voltou! Estava com saudades, embora entenda que você tenha seus muitos compromissos. Viu a vitória do Crash e lembrou de mim, não é? Eu estava torcendo sem muita expectativa mas...
Um beijo, querida.

Iara Maria disse...

Marco, o seu texto tem um gosto de coisas tardias...feliz surpresa ao ver seu nome no blog de wescley...desta terra seridó, vamos tecendo novas colheitas...

Um abraço!
Iara

Jade Prado disse...

Claro que lembrei. E durante todo o decorrer.
Mas...?
(hoje que me toquei de que vc responde aos comentários por aqui)

Jade Prado disse...

Opa, esquece do "mas". Reli o teu comentário e agora entendi por completo, kkkkkkk.
Beijo, Marquito!

Marco Santos disse...

Iara: Mãe das águas, prazer em tê-la aqui na minha cristaleira de emoções. Volte sempre que quiser. Você tem blog?

Minha doce Jade: Eu SEMPRE respondo aos comentários. É o mínimo que posso fazer por quem me dá a honra e o prazer de me ler.
Completo a frase: Eu estava torcendo sem expectativa, mas...O meu favorito ganhou! É isso o que importa!
Beijo, anjo.