quarta-feira, janeiro 25, 2006

O Sentido da Vida


No tempo em que a programação vespertina dominical das televisões não era essa indigência que a gente vê hoje, eu tinha o seguinte hábito: ficava na rua brincando até umas cinco, cinco e pouco. Depois ia para casa, tomava banho, minha tia colocava a mesa para o lanche e eu ligava a TV (preto-e-branco), girava o seletor de canais (não existia controle remoto, estás pensando o quê?) e colocava no canal 6, TV Tupi. Às 18 horas, começava “Disneylândia”, apresentado pelo próprio Walt Disney. Cada programa falava de um “mundo” e havia quatro deles: “o da ciência”, “do amanhã”, “da fantasia” e “animal”. Os meus favoritos eram o “mundo da fantasia”, por conta dos desenhos, e o “mundo animal”, também conhecido como “Maravilhas da Natureza”. Neste, passava documentários sobre os ursos do Canadá, ou sobre os alces dos Parques Nacionais americanos, ou sobre os bichos do Rio Nilo... Eu gostava tanto de ver aquilo, que cheguei a falar: “quando crescer, quero viajar pelo mundo, filmando os animais”. Hoje, troquei o verbo “crescer” pela expressão “ganhar sozinho na mega-sena”. Mas a intenção ainda perdura...
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Estou escrevendo sobre estas coisas do tempo em que Matusalém era coroinha só para falar da minha experiência ao assistir ao filme “A Marcha dos Pingüins” (“La Marche de l’ Empereur”, França, 2005, direção de Luc Jacquet). Caramba! Como me lembrei do tempo em que eu assistia, embevecido, os documentários do programa Disneylândia!
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É o segundo documentário mais visto na história recente do cinema americano, só perdendo para “Farenheit 11 de setembro”, do Michael Moore. O crítico de O Globo escreveu que este era um “filme fofinho”. E, de fato, não tem quem não faça “oooohhh...”, “aaaahhh”, quando vê, por exemplo, a cena do pingüinzinho, correndo atrás da mãe, fazendo “piu! piu! piu!”. Mas o filme é muito mais do que isso. Para mim, serviu como resposta para a célebre pergunta, que atazana os filósofos desde o tempo em que Adão era escoteiro: “qual é o sentido da vida?”
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O diretor Jacquet pegou uma equipe e embicou no caminho para o Pólo Sul. A Antártica é o único local do planeta onde existem pingüins (está aí uma coisa que eu não sabia...). Lá, ele levou meses filmando o ciclo de acasalamento e reprodução dos pingüins imperadores. Falando assim, parece uma espécie de chá calmante em forma de celulóide. Mas não é não. Depois de horas de material filmado, ele construiu um filme com início, meio e fim, protagonistas, antagonistas, cenas de tensão, conflitos até dizer chega, e colocou na tela uma história que verdadeiramente nos faz refletir.
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Em rápidas palavras: em determinado período do ano, os pingüins imperadores saem do mar e marcham para um lugar específico. Lá, eles encontram suas parceiras, têm seus momentos de amor, a fêmea bota um ovo que os dois vão cuidar juntos. Os ovos e filhotes são extremamente frágeis, se não forem mantidos com cuidados extremados, morrem.
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Depois que os ovos são postos, começa a segunda marcha – coisa pouca, só uns 200 quilômetros - das mães, que voltam ao mar para se alimentar e trazer o alimento para os filhotes que terão nascido quando retornarem. Os pais ficam cuidando dos ovos, mantidos entre as pernas e sobre os pés, o tempo todo. Isso leva meses. Nesse intermédio, os filhotes saem da casca, sob os cuidados dos machos. Quando estes já estão no limite de suas forças, as mães retornam. Será a vez deles seguirem para a marcha rumo aos peixes. Quando retornam, os filhotes já estão crescidos. Logo, tratarão de sobreviver por conta própria. Tudo isso acontece em meio aos predadores naturais dos bichos, como a foca, aves de rapina e o próprio frio, talvez o maior deles.
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O que me chamou a atenção foi a expressividade dos bichinhos, a docilidade com que se deixavam filmar, o que permitiu a feitura de cenas de belíssima fotografia, em alguns momentos parecendo uma pintura expressionista. Os próprios bichos são de extrema beleza plástica. A gente só tem que aplaudir o melhor dos designers que os criou. Um artista conhecido como “Deus”. Jeová, para os judeus. “Vavá”, para os íntimos.
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Mas e a resposta à pergunta sobre a tal pergunta?
Eu descobri que aquele ciclo era a resposta. Qual o sentido da vida? Ora, é viver. É sobreviver. É tocar a vida adiante, apesar e por causa das agruras. Você achou a resposta simplória? Talvez seja. Mas a solução do mistério é realmente simples. Nós, os homens, a complicamos. Temos – todos os seres - o tempo de nos alegrar, de nos entristecer, de celebrar, de lutar pela sobrevivência, de deixarmos os sinais de nossa existência marcados no planeta. Cada um ao seu modo. Para isso fomos criados. Humanos e pingüins. Temos de viver. Viver intensamente para se alcançar a leveza. E se alguém ficar pelo caminho, isso também é parte do ciclo da vida. Não devemos perder de vista que, como se costuma dizer, “a vida é o que nos acontece enquanto estamos fazendo planos mirabolantes”.
M.S.

22 comentários:

Dira disse...

“a vida é o que nos acontece enquanto estamos fazendo planos mirabolantes”.

é verdade. acho meio complicado viver, ou nós fazemos da vida um quebra-cabeça horrendo. sei não. um dia tu entenderás pq digo isso. tomara que não fiquemos para trás mesmo que isso faça parte de algum plano. Eu sou apaixonada por documentários de animais, é como se eu percebesse que ainda há esperança de alguma maneira, alguma sensibilidade há em nós. Não é possível. Ei, beijo pra tu e pros pinguins. Muito especial essa sua tradução do filme e das perguntas sem respostas. Outro beijo pra assinar o comentário e mais um pra ir sem tu chorar...hehehe

Ronie disse...

Isso mesmo Marco: a vida é de uma simplicidade danada. Nós é que complicamos. Ah, sabia que alguns pinguins se desgarram (não sei o coletivo de pinguins) e são castigados pelo mundo, pagando com a própria vida? Pois é, já vi dois: lindinhos, fofinhos, deu vontade de pegar. No entanto, estavam mortinhos da silva. Que pena, quase em prantos, atravessei a rua e fui tomar um chope escuro com bolinho de bacalhau no restaurante Pirão, em Florianópolis.

Mut disse...

O sentido da vida eu não sei. Acho que só quando a gente morrer é que a gente descobre. Mas que eu fiquei curioso pra ver a Marcha dos Pinguins eu fiquei.

Um abraço!

claudia disse...

oi ...
(adoro dizer oi)
engraçado...tão simples e tão gostoso de ouvir e dizer.

Se for ao meu blog...acabei de escrever uma coisa lá...
rs..
parecida.
tão simples a vida. (mudando um pouco a entonação, mas no final...dá no mesmo)
um beijo no coração

Paulinho Patriota disse...

Grande Marco:

Deus: "o melhor dos designers"... Essa foi mestríssima! Ainda vou usá-la no ZOOM com tua devida autorização.

Ah,nem me recorde do "Mundo Animal". A gente aqui chamava-o de filme dos bichos. Inesquecível. Assim como a demora,depois de apertado o botão,da imagem entrar no ar na TV Tupi (Quem lembra da novela "Vitoria Bonelli"? A segunda que assisti. Naquele tempo aqui na província existiam poucos aparelhos televisivos,e nossa sala ficava pejada de vizinhos ansiosos pelo resultado do desfecho do dia antecedendente.) Isso sem contar as interferências sonoras,no quadrado audiovisual,se um veículo passasse em frente do nosso lar...

Bato o carimbo da concórdia contigo sobre a indigência dos eventos atuais da tevê: "A televisão não mente",fuzilava o escritor pernambucano Nélson Rodrigues. A privação de inteligência em certos programas atuais é o prolongamento de uma crise moral que afoga o País. É frouxa e mercantil. É medíocre e perdulária como a massa de desencontros que envenenam o Brasil.

Hoje,os telespectadores assistem certas coisas com lágrimas desencantadas nos olhos.

Tua descritiva sobre o documentário das belas aves marinhas já se pode inserir entre os melhores deste ano aqui no ANTIGAS...

Bom dia para todos.

Marco Santos disse...

Bela Dira: Para viver bem, devemos deixar de lado as complicações. Temos o livre-arbítrio para isso, mas muitas vezes optamos por torna-la um "quebra-cabeças horrendo". No ano passado, vi dois documentários brasileiros: "Morro da Conceição" e "O fim e o começo". Em ambos, pessoas simples são entrevistadas para falar de suas vidas humildes, simples mas plena de felicidade. Os textos que fiz sobre estes filmes estão no arquivo de dezembro, acho. O segundo documentário foi feito aí na Paraíba, seu estado.
Obrigado pelos beijos. Os pingüins tambem agradecem. Agora sei de onde o seu "bebê" de 17 anos tira tanto carinho e doçura...
Um beijo.

Amigo Ronie: A vida nos é tão mais simples quanto menos complicados somos. Estragar nossa vida com complicações é uma perda de tempo.
Como eu escrevi, na vida alguns ficam para trás. E isto faz parte do processo. Lamente pelos pingüins que morreram. Mas saiba que eles cumpriram a sua jornada. E foram capazes de emocionar um certo candango, perdido nas areias de Florianópolis...
Venha de lá um abraço.

Caro Mutante: Descobrir o sentido da vida depois de mortos é como ficar reprovado na matéria. Será preciso voltar e cursá-la de novo. Até aprendermos.
Veja o filme com a minha recomendação. Ele é ótimo. Abração!

Claudinha: Já fui ler o teu poema. Belo. Simples. Como deveria ser a nossa vida. Um beijo pra você.

Paulinho grande Patriota: "Autorização - Eu, Marco Santos, autorizo o digníssimo Paulo Patriota a usar qualquer palavra, frase ou texto deste modesto Antigas Ternuras em seu maravilhoso Zoom Cotidiano. E assino em baixo."
Sobre a sua descrição dos antigos televizinhos, lá em casa também era assim. Um dia desses eu conto esta antiga ternuras para vocês.
Se tiver passando aí, em recife, não deixe de ver "A Marcha dos Pingüins". Conhecedor de sua sensibilidade, tenho certeza de que você vai gostar. E se emocionar. Um forte abraço, amigo.

carla disse...

Eita, o tempo em que para mudar de canal tinha que girar. Faz tempo isso. Bem me lembro. Eu sempre quebrava. haha.
Marco, um grande abraço

Paulinho Patriota disse...

Grande Marco:

Excelentíssimo amigo,venho através deste agradecer-vos,mui pimpão,a vossa autorização. O que só nos prova que em ti paira um generoso cerne... Assim como no "Antigas" vivem delícias,semelhante à goiabada Cascão ou um Conga devidamente amaciado.

Tenho dito.

Cordialmente,vosso servo.

Paulinho Patriota disse...

Errata:

Amigo,perdoai as doidices das colocações gramaticais no outro post. Será que sou noctâmbulo e escrevera aquilo dormindo...?

Não "fi-lo porque qui-lo".

Dira disse...

Eitcha que já estou viciada. Então, como não tem post novo, vou lá pros teus arquivos. Beijo pelo "doce".

lúcio disse...

Marco, a Sincronicidade está batendo forte, hein? Na minha situação atual, há a vida apenas, "sem mistificações", como no poema do Drummond. Mui oportuno. "Ser é esquecer(-se)"? Abraços virtuais.

Jade Prado disse...

"Viver intensamente para se alcançar a leveza."
Essa insustentável leveza do ser - é, essa frase me lembrou desse livro lindo. Sabe que ontem assisti um filme belíssimo? A Moça do Brinco de Pérola. Você já deve ter assistido. Eu saí muda com a delicadeza e as cores quase que por estourar e a fotografia. Um par de delicadas pérolas mesmo. E acho que antes de devolver, assistirei novamente. Beijos, Marco!

Jade Prado disse...

Ah! Esqueci de falar. Mudei o endereço do meu Blog. Agora é: http://umcomo.blogspot.com/
Inté!

Marco Santos disse...

Carlinha: Você lembra do barulho que fazia quando passávamos canal por canal? Em casa nunca quebrou porque a minha mãe vivia alertando a gente para girar devagar.

Paulinho grande Patriota: Meu amigo, aqui você manda. E se não tiver o que você quer eu mando buscar!

Bela Dira: Uma escritora de mão cheia como você viciada nos meus textos??? Como diria aquela velha marchinha de Carnaval: "Me segura que eu vou ter um troço, oi!"
Leia tudo o que você quiser, amiguinha. Fique a vontade, a casa é sua. Já li o seu comentário no post lá de baixo. E fiquei muito feliz por você ter gostado! Um beijo doce com gosto de rapadurinha de leite aí de João Pessoa.

Grande Lúcio: E aí? Nasceu o mais novo candango do pedaço? Me dê notícias. rapaz, eu e Ronie andamos afiados na sincronicidade, você viu? Alemón está no Rio e nem me procurou. É um mané, mesmo...

Querida Jade: Eu não assisti a este filme, você acredita? Tentei uma vez e o Estação Unibanco estava lotado. Vou pegar o DVD.
Já acertei o link do seu novo endereço no meu "Outras Palavras". Beijão!

Dira disse...

Péra aí: "rapadurinha de leite"? Muito prazer. A propósito, nesses meses que virão tô indo conhecer o Rio. Se quiser rapadura de verdade, eu levo..rs

Marco Santos disse...

Você virá ao Rio? Querendo conhecer este velho marquês, a honra será toda minha. E ainda armo um encontro com os blogueiros mais porretas do pedaço, se você quiser. Vai ser um enorme prazer para a gente recepcionar tão ilustre figura.

Dira disse...

ihhhh. tô dentro. arma sim. quando tiver perto te aviso. será um prazer. anota meu email? diraavieira@yahoo.com.br

Marco Santos disse...

Legal, Dira!
Alô, Paulo, Evandro e Helena! Precisamos recepcionar condignamente esta nossa colega da terra de Ariano Suassuna.

Paulo Assumpção disse...

Marco, pode contar comigo! Será um prazer revê-lo e recepcionar nossa colega de ofício. Quanto ao filme, não sou lá muito fã de documentários sobre a vida animal, mas este "A Marcha dos Pingüins" é realmente bem bacana. Diferente de você, não saí do cinema filosofando, mas sim tentando imaginar a trabalheira que deve ter dado para filmar tudo aquilo. Luc Jacquet merecia, no mínimo, um Oscar honorário! Sobre a pergunta que não quer calar, penso que, para os bichos, o sentido da vida deva ser somente sobreviver. Contudo, para nós, humanos, deve (ou deveria) ser mais do que isso. Acho que temos o dever de deixar alguma contribuição, por menor que seja, para este mundo. E não estou falando somente de passar os genes adiante.

Marco Santos disse...

Legal poder contar contigo na recepção à Dira. Aliás, recomendo uma visita sua ao blog dela (madamemin.zip.net). É material de primeiríssima qualidade.
Sobre o filme, eu também saí do cinema imaginando o baita esforço que ele fez nas filmagens. Li numa matéria que quase morreu gente da equipe por hipotermia. Segundo Jacquet, a sorte deles era a proximidade da base francesa na Antártica da área onde a pingüinzada ficava.
Se você me permite, vou discordar. Mesmo para os pingüins (para todas as criaturas, eu digo isso no meu texto) o sentido da vida não é "passar os genes adiante". Todos os seres podem e devem deixar, de alguma forma, a sua existência marcada no planeta. Não considero a raça humana privilegiada por ser racional. Mesmo porque tem alguns seres humanos que não o são. O que quis dizer é que cada criatura na Terra tem a sua função, a sua trajetória. E se nos preocupássemos com ela ao invés de ficar pensando que outro sentido teria a vida, viveríamos melhor. sem grilos e sem estresses.

Madame disse...

Bela lição de vida...com olhos marejados e congelados volto à minha muito mais "pingüim", poderia dizer humana, mas isto não expressaria meus sentimentos... Quanto a programação da TV, um dia assistia à Lessie e minha mãe entrou na sala: - O que foi filha, porque está chorando?... Entre lágrimas: - Snifff, a Lessie se perdeu...Coisa de criança sensível, sabe? Adoro suas visitas em casa de Madame e seus comentários, desculpe meu sumisso tive alguns probleminhas técnicos... Mas estou aqui para saborear as re-cordis...beijos de mim

Marco Santos disse...

Madame Linda: Se você choramingou com a Lassie, imagino que você tenha aberto o berreiro com a morte da mãe do Bambi. Até hoje tem uma geração traumatizada por isso.
Se for possível, vá assistir ao filme "A marcha dos pingüins". É muito bom, muito belo.
Senti a sua ausência, sim. Que bom que você voltou.
Já estou indo no seu maravilhoso blog para ver se tem novidades da pena da talentosa bruxinha.
Muitos beijos pra você.