sexta-feira, novembro 25, 2005

Lerêêêêê lerê

“Vida de nêgo é difícil...É difícil como quê...”
Nem precisa desta canção de Dorival Caymmi e trilha sonora da novela “Escrava Isaura” para a gente concordar que a vida era difícil para quem tinha excesso de melanina na pele. Era? Não é mais?
As estatísticas dizem que continua sendo. Recentemente, os jornais vêm publicando dados informando que nos quase cinco mil municípios brasileiros, os negros só tem alta qualidade de vida em sete deles: São Caetano (SP), Mozarlândia (GO), Rio Quente (GO), Brasília (DF), Goiânia (GO), Cláudia (MT) e Vitória (ES). Curiosamente, destes vemos cinco do Centro-Oeste, dois do Sudeste e nenhum do Norte, Sul e Nordeste. Pois nesse nosso Brasil Mulato, neste nosso “socialismo moreno”, a vida de “nêgo” continua sendo muito difícil.
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Não há nenhuma novidade nisso. A História está aí mesmo para comprovar a grande dívida que a raça branca tem para com seus irmãos de pele escura. Na verdade, o Homem explora seu semelhante desde sempre, e isso é característico de nossa natureza. Nenhum outro ser vivente sobre este planeta discrimina sua própria espécie baseada em suposta superioridade de uma raça por outras. Ou baseada em qualquer outra alegação.
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Recentemente revi dois filmes que são exemplares para a discussão sobre como semelhantes tratam os outros, recusando-lhes a dignidade: “A Cor Púrpura” e “Amistad”. O que um tem a ver com o outro? Nada. Tudo.
Um tem história que se passa no século 20. O outro, no século 19. Um é ficção, o outro baseado em fatos reais. Mas, em contrapartida, ambos foram dirigidos pelo mesmo grande mestre – Steven Spielberg. Ambos se passam parte nos Estados Unidos, parte na África. Os dois tratam de escravidão: um, no sentido literal (Amistad), outro, figuradamente (A Cor Púrpura). E, principalmente, eles estão repletos de humanidade, onde falhas de caráter tão inerentes à natureza humana se sobressaem e nos comove.
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“A Cor Púrpura” é um romance premiado de Alice Walker, levado às telas em 1985. Conta a história de Celie (Whoopi Goldberg, memorável!), que vivia feliz pelos campos de flores púrpuras com sua irmã, Nettie, como pode ser visto na magistral cena de abertura. Nem o fato dela ter sido estuprada pelo próprio pai, que lhe fez dois filhos, imediatamente dados ao nascer para uma outra família, lhe afetava a alegria. Ela tinha a irmã, as duas se amavam muito e isto parecia bastar. O pai não lhe estuprou somente o corpo, ele também violentou a sua alma. Ele a chamava de feia, dizia que o seu sorriso era horrível e lha deu para um homem desconhecido que fora pedir a mão da sua irmã. E este viúvo, Albert Johnson (Danny Glover, outro desempenho soberbo!), a tirou do purgatório para o verdadeiro inferno.
O filme se passa entre 1909 e 1936. A escravidão desde muito já tinha sido extinta nos EUA. Mas só no papel. Pelo que mostra o filme, pais e maridos tratavam esposas e filhos como os senhores cuidavam de seus escravos. E quem se rebelava contra esse tratamento, era segregada (como “Shug” [de “Sugar”] Avery, magistralmente interpretada por Margaret Avery; a própria Nettie, em belo desempenho da jovem Akosua Busia), ou massacrada como a personagem Sophia (Oprah Winfrey, em show de bola).
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Sophia se recusava a baixar a cabeça para os homens. Seu marido, Harpo, filho de Albert não sabia como lidar com ela. Em uma cena de alta voltagem emocional, ele vai pedir conselho à Celie que lhe fala da linguagem que ela estava acostumada a lidar: “Bata nela!” Harpo segue a sugestão. Ou tenta. Sophia lhe soca o olho e vai tomar satisfações com Celie, que se defende, argumentando: “A vida é curta. Só o Paraíso é eterno”.
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Eis aí o que a religião fez àquelas pessoas. Ensinava-as a se conformar com as agruras aqui na terra pela promessa de venturas no reino dos céus. Jesus Cristo disse “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. A Igreja “traduziu” como: “é assim mesmo, negros. Vocês sofrem aqui, mas quando morrerem irão para uma terra onde jorra leite e mel”. Viram alguma semelhança entre uma outra religião que tem feito promessas semelhantes a seus fundamentalistas?
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Dentro deste mesmo princípio, em “Amistad” vemos portugueses e espanhóis comerciando com vidas humanas, da África para a América. Cada negro que entrava nos navios negreiros era batizado e recebia um nome cristão. Era a forma da Igreja justificar a escravidão: estava dando àqueles selvagens a chance de conhecer o Evangelho. Mesmo contra a vontade deles.
“Amistad” (1997) é um filme admirável. Um dos melhores filmes de temática histórica que eu já vi na vida. Aliás, para a gente que gosta de uma lista de “melhores”, que tal fazermos uma relação com os cinco melhores filmes baseados em fatos históricos que já assistimos? O desafio é para todos, mais especialmente para os cinéfilos de plantão Paulo Assumpção, Evandro, Belisa, Carla, Paulo Patriota e quem mais topar. Vamos nessa? No post abaixo eu relaciono os meus favoritos.
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A história real de “Amistad”, filmada por Spielberg, conta sobre um navio negreiro que, em 1839, é tomado pelos escravos que transportava, e que tentam voltar para a África. Como não eram navegadores, acabam levando o barco para o outro lado e aportam nos Estados Unidos. Os espanhóis fazem queixa deles à Corte americana e pedem a restituição do navio e dos escravos. Para se defenderem, os africanos só têm o empenho do ex-presidente americano John Quincy Adams (mais uma aula de interpretação de Anthony Hopkins). O caso virou questão internacional entre os USA e a Espanha.
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Mas o que mais me chamou a atenção em “Amistad” foi poder visualizar como era feito o tráfico negreiro. O início do processo começava pelas mãos dos próprios negros que capturavam outros negros para vender em entrepostos, na maior parte das vezes, trocando por aguardente e ferramentas agrícolas. Como costumo dizer, “a natureza humana não falha!”
Depois vemos as condições em que as “mercadorias” eram transportadas para serem vendidas no Novo Mundo. Ah, Castro Alves, se você viajasse naqueles matadouros flutuantes, as suas imagens poéticas no belíssimo “Navio Negreiro” seriam bem mais corrosivas!

Uma coisa é a gente ler nos livros de História sobre o tráfico negreiro, o “banzo” e outras quizilas. Outra bem diferente é ver como aqueles seres humanos viajavam.
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Os dois filmes concorreram ao Oscar, mas não levaram nada. A Academia estava reticente com Spielberg. “A Cor Púrpura” (recebeu 11 indicações e não ganhou em nenhuma) perdeu para “Entre dois amores” (Out of Africa) e “Amistad” (recebeu quatro e também não levou nada) para “Titanic”. De qualquer forma, são dois bons exemplos de como a dignidade humana pode ser enxovalhada por outros seres semelhantes. A atual qualidade de vida dos negros brasileiros é fruto de um histórico processo que começa na própria natureza humana, que é predadora de si mesma, e passa pela intolerância e ignorância de quem se julga superior a outro pela cor da pele. Passa o tempo, mas, citando uma frase da personagem “Celie”: Quanto mais tudo muda, mas continua do mesmo jeito.
M.S.

4 comentários:

Ronie disse...

Vida de nêgo é difícil mesmo, eu que o diga!!! Mas, nada que uma boa escola pública não resolva. Esta é a solução. Comigo deu certo.

Paulinho Patriota disse...

Grande Marco:

Minhas retinas já tão cansadas pela luz magnesiana do micro nesta madrugada (são 2:30 agora),e como sou de leitura atenta por aqui não quero comentar num vapt-vupt,sonolento que estou.

Voltarei às 14:00 com muito louvor.

Deixo,porém,uma das cenas que mais me chocaram na TV: aquela que a rainha da Inglaterra despreza a mão estendida da cantora negra Dionne Warwick,a única de pele escura na lista de convidados.

Abraço.

Paulinho Patriota disse...

Queria me estender mais num comentário sobre teu atual post,mas quem sou eu para discorrer sobre algo tão complexo?

Recordo agora apenas do mestre de Apipucos. Não foi por acaso que ele foi chamado de "muito genial".

Gilberto Freyre,sua excelência a pernambucanidade,constelação de Gilbertos num só Gilberto,que se projetou na História,liberto da autoclassificação mordaz de anarco-intelectual,como um dois maiores humanistas do Brasil,mesclava à sua ampla dimensão a sua grandeza de pessoa humana para quem não existiam preconceitos.

Inclusive - e escandolasamente! - o preconceito de cor.

Vamos reler o "classicão" dele?

Bom domingo,desde já,Marco.

Marco Santos disse...

Talvez no nosso tempo, escola pública resolvesse, caro Ronie. Hoje seriam preciso outras políticas públicas.
Paulinho grande Patriota: você tem razão: o assunto é delicado. Cabe discussão bem maior que as poucas linhas deste blog.