terça-feira, outubro 18, 2005

Moisés versus Darwin: quem está certo?



Vejam como é que são as coisas. Estamos em pleno século 21. E desde o século 20, ou seja, ontem, o homem já pisou na Lua, construiu estações espaciais, desvendou os segredos do átomo, perscruta os cafundós do Universo com um super telescópio, clona ovelhas, vacas, cavalos, ratos, descobre na Genética que o ser humano é apenas uma das 30 milhões de espécies descendentes de um organismo primitivo há cerca de quatro bilhões de anos.
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Entretanto, este último tópico vem sendo negado progressivamente por mais e mais pessoas. Ganha cada vez maior força a idéia de que o chamado Evolucionismo darwiniano é uma mentira. O que vale é o Criacionismo bíblico, como está no Livro de Gênesis. Tenho visto nos jornais, nas revistas, o avanço do pensamento criacionista, agora travestido como “Criacionismo inteligente”, aquele que procura justificar cientificamente que Deus criou todas as coisas – o céu, a terra, os seres - há exatos seis mil anos atrás.

Para os que defendem esta forma de pensar, o Universo foi criado pelo Ser Supremo, no dia 23 de outubro do ano 4004 antes de Cristo. E mais: o homem conviveu com dinossauros, pterodátilos e outros seres pré-históricos. Todavia, eu não consegui descobrir explicações nesta corrente ao fato desses grande animais terem sido extintos e os humanos não. Aliás, também não consegui quem me respondesse se um casal de tiranossauros rex, por exemplo, foi conduzido na Arca de Noé.
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Você que me lê pode achar que eu estou ironizando com o assunto. Juro que estou usando minha imparcialidade de jornalista ao máximo que posso. Sei que, recentemente, vários estados do sul dos EUA decidiram retirar o ensino da teoria de Darwin do currículo escolar e que outros decidiram por incluir a Teoria Criacionista para ser ensinada junto com a outra, cabendo ao aluno decidir por qual vai optar. Isto foi considerado como um retrocesso, uma vez que desde 1968 (um ano antes do homem pisar na Lua) a Teoria Evolucionista vem sendo livremente ensinada em todos os estados norte-americanos.
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Curiosamente, num dia desses eu assisti num canal a cabo a um filme admirável, desses para entrar na minha lista de melhores de todos os tempos. Chama-se “O Vento Será Tua Herança” (“Inherit the wind”). Ele é baseado na peça de mesmo nome, escrita por J. Lawrence e Robert E. Lee, em 1951, em plena era macartista. A peça foi levada à tela em duas oportunidades: em 1960 (a que eu vi), dirigida por Stanley Kramer, com Spencer Tracy, Gene Kelly e Dick York (o marido da Feiticeira) no elenco; em 1999, dirigida por Daniel Petrie, com Jack Lemmon, George C. Scott e Tom Everett Scott. A história se baseia em eventos acontecido em Dayton, no Tennessee, no célebre “Julgamento do Macaco” (“The Monkey Trial”), quando o professor de Biologia John Thomas Scopes foi levado às barras do tribunal por ter ensinado a Teoria da Evolução aos seus alunos. O julgamento representou uma verdadeira batalha entre os advogados William Bryan (candidato à presidência derrotado nas eleições americanas de 1896, 1900 e 1908) e Clarence Darrow, militante da União Americana pelas Liberdades Civis (Na foto, Darrow é o da esquerda e o careca Bryan, o da direita).

Por incrível que pareça, o juiz John Rauston chegou a impedir que cientistas fossem apresentados como testemunhas em favor da Teoria Evolucionista. Naquele ambiente conturbado, o fundamentalista Bryan venceu a causa pelos criacionistas (e morreu cinco dias depois do julgamento).
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O filme trata de um dos maiores exemplo de intolerância já vistos na História. Chega a lembrar o caso de Giordano Bruno, padre italiano queimado como herege na fogueira do Vaticano Grill, em 1600, por defender a tese de que a Terra não é o centro do Universo, conforme tinha descoberto Nicolau Copérnico.

Scopes não virou picanha numa fogueira inquisitória, ao contrário. Ficou famoso e recebeu milhares de cartas de todo tipo. Recusou aquela fama rápida e virou um obscuro geólogo no interior dos EUA.
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Mas eis que a polêmica Criacionismo x Evolucionismo volta a tona em dias atuais. Recentemente, até a governadora (?) Rosângela Matheus, vulgo, “Rosinha Garotinho”, defendeu o ensino do Criacionismo nas escolas do Rio, em contraponto ao Evolucionismo, que ela afirmou não ser verdade: “é só teoria”, disse com um esgar, como se a história da costela de Adão fosse um axioma cristalino e definitivo. Aqui e ali se acham textos justificando a criação divina e repudiando uma evolução “acidental”. Um deles é este aqui. Um dos argumentos que o autor utiliza para negar a evolução das espécies é este:
“Se o surgimento do Homem na Terra fosse um processo de auto-evolução, de uma minúscula bactéria ou de coisa semelhante, então as nossas unhas poderiam ter nascido em qualquer lugar do nosso corpo: no cotovelo, na sobrancelha, no órgão sexual ou até mesmo no lugar dos nossos dentes”.
Bem, eu não conheço nenhuma espécie animal com unhas no órgão sexual ou no cotovelo. Darwin explica que as unhas humanas foram perdendo a função de garras – como nos outros animais – por não serem usadas com este fim. Para o Darwinismo, órgão não usado tende a atrofiar. O que explica a pouca inteligência de algumas pessoas que fazem pouco uso de seus neurônios.
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Os fatos estão apresentados. Tome partido, meu caro leitor: você acredita na explicação científica mais em voga para a criação do Universo e da vida na Terra (o Big Bang, o Evolucionismo) ou prefere acreditar no relato que Moisés fez nos primeiros cinco livros da Bíblia – o Pentateuco – dando conta que Deus criou o Universo e tudo o mais em seis dias? (aliás, não sabemos de quantas horas são estes dias do Gênesis. Como o planeta Terra ainda não tinha sido criado, certamente não são de 24 horas).
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Veja bem: o Big Bang e a teoria darwiniana não afastam a idéia de um Ser Supremo criador. Para muitos cientistas, foi Ele quem acionou a grande explosão criadora, tanto no Universo como na Terra. Para quem discorda destas teorias tem, além do relato bíblico, outras hipóteses desenvolvidas para a Criação do Mundo em outras religiões e/ou civilizações. Algumas são até mais bonitas, do ponto de vista estético-literário, do que a defendida pela corrente majoritária, a judaico-cristã-islâmica, que é a que está na Bíblia.
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Pessoalmente, sou pragmaticamente crítico em relação ao relato de Moisés. Até já me manifestei sobre isso no meu conto Aconteceu no McDonald’s, postado aqui em 4 de julho. Está na cara que tem algo estranho na história contada por Moisés. Aliás, tem uma piada ótima sobre ele. Quando o povo judeu estava fugindo do Egito, com os guardas do faraó nos seus calcanhares, eis que chegam à beira do Mar Vermelho, que lhes tolhia a passagem. Moisés disse que iria abrir o mar para que o povo pudesse passar com pés secos. Ao ouvir isso, um de seus assessores disse: “Se o senhor abrir o mar, pode contar, eu lhe garanto no mínimo dez páginas na Bíblia”.
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Mas, independente da versão que você vá defender, saiba que todas duas podem ruir se encontrarem vida inteligente nos outros planetas. Para os criacionistas, vai ser um tiro no coração saber que a Terra não é o centro da criação; seria apenas mais um planeta habitado. Como deve ter sido duro para a Igreja, quando soube que o nosso planeta, o planeta onde nasceu Jesus Cristo, não era o centro do Universo, e sim um dos milhões de outros mundos que existem num Universo infinito. E para os evolucionistas, que afirmam ter a vida sido criada na Terra por ter o nosso planeta condições únicas para o surgimento daquele alfaaminoácido originário de toda a vida animal, uma forma de vida razoavelmente inteligente fora das condições existentes na Terra, vai obrigar muito cientista a rever suas anotações.

E então? Qual camisa você vai vestir? Darwin ou Moisés? Claro que se você for agnóstico, fica mais fácil optar. Se você acredita, como John Lennon disse na música “God”, que “Deus é apenas um conceito com o qual exprimimos a nossa dor”, sua opção talvez fique mais óbvia. Sobre questões filosófico-religiosas, a se buscar no cancioneiro, prefiro um célebre pagode cujo refrão diz: “Tudo o que faz na Terra/Se coloca Deus no meio/Deus já deve estar de saco cheio”.
M.S.

4 comentários:

argh, lemòn. disse...

...cada dia mais e mais os dogmas perdem o sentido. Faz-me rir diante de tamanha ignorância. Faz-me verter as lágrimas milhões de pessoas envoltas às trevas obscuras da farsa judaico-cristã ocidental. Se acham os fodões, até a realidade querem manipular.

Pensando bem, é tudo uma questão de VISTA do PONTO em que se encontram. Ou em que se peredem...
E é.

Marco Santos disse...

Uma vez li uma definição do Millôr que dizia que "Constituição é uma virgem doida para ser violada". Pois dogmas são a mesma coisa. É como se eles pedissem, "neguem-me, derrubem-me, contradigam-me". Na verdade, a ignorância dessa gente não é tão engraçada assim. Temos mais razões para chorar do que para rir diante do que fazem "em nome de Deus". Uma hora dessas, Ele vai fazer ribombar a sua voz de trovão pelos céus, dizendo: "Pô, me incluam fora disso!"

argh, lemòn. disse...

...rsrsr, aí eu vou me borrar todo, pois sou de satã, rsrsrs...

Marco Santos disse...

Credo, alemón... Pô, cara, essa foi forte, heim? E é. Muito.