sexta-feira, setembro 09, 2005

A bela (surpresa) da tela


Só a frase: "o personagem não pertence ao ator; o ator é que pertence ao personagem", já me faria aplaudir o excelente filme "A bela do palco" ("Stage beauty", EUA/Alemanha/Inglaterra, 2004), em cartaz na rede Estação. Entretanto, o filme é bem mais do que esta frase.
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Baseado em um ator que realmente existiu, Edward "Ned" Kynaston (1640-1706), provavelmente o último e certamente o melhor a representar papéis femininos ao tempo em mulheres não podiam atuar em Teatro [veja foto dele à direita] , o filme descreve primorosamente uma época em que o rei e os poderosos de então iam assistir às peças. Bons tempos aqueles! Não tenho notícia de nenhuma ida ao Teatro (qualquer Teatro) do Mr. Bush ou do Mr. Blair ou mesmo do Sr. Da Silva.
Pois no Século 17, onde pontificava na Inglaterra o rei Charles II, a nobreza ia ao Teatro e ainda patrocinava peças, vejam vocês! Aliás, no filme o próprio rei também dá uma de ator e se veste de mulher para jogos teatrais em seu palácio (veja a foto abaixo)

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Em rápidas linhas, eis o argumento: Ned Kynaston (Billy Crudup, que esteve recentemente no admirável "Peixe grande e suas histórias maravilhosas", de Tim Burton) está no auge de sua carreira de ator, famoso e incensado por seu desempenho nos papéis femininos das peças de Shakespeare. Eis que sua camareira, Maria (a bela e talentosa Claire Danes, "mocinha" de "Exterminador do Futuro III"), pretende se tornar atriz, apesar da proibição de mulheres atuarem. Para isto, ela o observa em cena, adquirindo inclusive seus maneirismos. Por intervenção de uma outra aspirante aos palcos, Nell Gwinn (Zoe Tapper) [veja a foto da atriz original, que realmente existiu] , que também era amante do rei Charles II (o sempre ótimo Rupert Everett), cai, por decreto real, a proibição de mulheres representarem. Isto faz com que a carreira do "especialista" Kynaston decline, ao mesmo tempo em que Maria passa a ser a grande sensação dos palcos. Mas eis que, em determinado momento, é preciso que ela represente bem o papel de Desdêmona, justamente a pièce de résistence de Kynaston.
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Crudup transmite perfeitamente a personalidade dupla do protagonista, incluindo sua arrogância, sua afetação e toda a dubiedade de seu comportamento amoroso/sexual. É curioso observar que na primeira parte do filme, quando ele atua em travesti, as cenas no palco tenham aspecto farsesco, absolutamente risível. A gente chega a se perguntar se era assim mesmo que se representava ao tempo de Shakespeare e na fase imediatamente posterior a ele, que é o tempo do filme. No entanto, vemos a cena final de "Othelo" ganhar uma dimensão e uma força de fazer a platéia (do filme e da peça) perder o fôlego. Nunca vi, em toda a minha vida, uma cena final deste clássico shakespeariano representada com tanto arrebatamento e impacto emocional como a mostrada no filme.

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Nas reconstituições de época, os ingleses costumam ser imbatíveis e neste "A bela do palco" continuam dando o show habitual. Cenários e figurinos são perfeitos, a direção de arte é capaz de fazer pirar carnavalesco de escola de samba, os diálogos são magistralmente escritos, a fotografia é belíssima.
No elenco, todos estão ótimos: além dos citados, podemos incluir o sempre correto Edward Fox e a luxuosa coadjuvância de Ben Chaplin, Hugh Bonneville e Richard Griffiths. Os demais, com pequenas participações, também se saem muito bem. A direção de Richard Eyre é perfeita, conseguindo retirar dos atores o melhor de cada um e criando belas molduras para a história que está sendo narrada.
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Se você acha que este filme faz lembrar "Shakespeare Apaixonado" está redondamente enganado. Ambos são tão semelhantes quanto uma taça de Château Lafite-Rothschild e um copo de Cantina de São Roque. Alias, depois de ver o desempenho de Claire Danes, a gente fica imaginando como a Gwineth Paltrow pôde vencer a Fernanda Montenegro no Oscar...
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Para mim que também sou ator, um filme como este dá um nó na cabeça, especialmente nos momentos em que Kyneston começa a se questionar sobre a importância de atuar, ou nos seus esforços em melhorar sempre, ou ainda nas dúvidas que assediam o personagem Maria... Há uma complexa (para nós, atores) discussão sobre arte e vida que não há como não instigar quem já entrou num palco para representar.
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Por fim, fica a deliciosa frase que o rei Charles II disse no camarim para os atores, depois de ter visto a peça: "vocês falam em tragédias e mortes, mas depois vamos sair para jantar".
Cai o pano.
M.S.

3 comentários:

Evandro disse...

Excelente análise, Marco. Parece ser um filme primoroso. Pena que estes filmes ficam restritos a um circuito muito pequeno e alternativo de cinemas. Para quem mora na baixada, como eu, fica difícil se locomover sempre para assistir esses filmes.
Na maioria das vezes, tenho que aguardar o lançamento em DVD!

Paulo disse...

Concordo com meu sócio no elogio à resenha e na impressão acerca deste filme. Fiquei curioso para assistir. No meu caso, não é problema algum me deslocar para o Estação. Ao contrário, é sempre um prazer ir a Botafogo. Assim como é sempre um prazer visitar o Antigas Ternuras. Pena que ultimamente esteja difícil fazer ambas as coisas com a freqüência que gostaria... Um grande abraço!

Marco Santos disse...

Evandro: Ë pena só passarem blockbusters por aí. Acho que os programadores imaginam que não haja "vida inteligente" nas periferias dos grande centros urbanos. Bom, de qualquer maneira, você ainda tem a opção do DVD.
Paulo, meu personal teacher de template: Não deixe de ver este filme. Como cinéfilo e como professor de História. Compreendo que você esteja assoberbado. Tão logo passe o sufoco, você volta a frequentar os cinemas, o Antigas Ternuras e retoma o nosso curso.