quarta-feira, agosto 31, 2005

Fiquei sem palavras


Está em cartaz no Estação Unibanco o filme mais recente do diretor sul-coreano Ki-duk Kim: "Casa Vazia".
É o segundo filme dele que eu assisto. O primeiro foi o belíssimo "Primavera, Verão, Outono, Inverno...e Primavera". E já neste observei um estilo cinematográfico curioso: o filme quase não tinha diálogos. Tudo bem que as imagens maravilhosas das locações daquele templo budista já falavam por si. Mas não é comum um filme com tão poucas palavras ditas.

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Pois neste "Casa Vazia" tem menos diálogos ainda! E mais: o protagonista passa o filme inteiro sem dizer um "ai!". Até onde me lembre, é a primeira vez que um personagem principal de um filme entra mudo e sai calado.
Eu não quero adiantar muita coisa sobre a história para não tirar a surpresa de quem quiser assistir (o que eu pessoalmente recomendo). Basicamente, o argumento é o seguinte:
Um rapaz outsider vaga por uma grande cidade, invadindo as casas de pessoas que estão viajando. Ele não rouba nada. Ao contrário: lava (na mão!) a roupa dos donos da casa, realiza pequenos consertos, rega as plantas e faz a faxina geral. Em troca, ele dorme lá, come umas coisinhas, tira fotos suas com objetos pessoais dos donos das casas.

Em uma dessas invasões, ele conhece uma mulher, cujo marido a maltrata, e que acaba fugindo com ele e adotando a sua mesma vida errante.
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O filme tem uns interessantes toques de realismo fantástico que muito me agradam. O tal rapaz, que é uma espécie de ser invisível nas casas que invade, acaba mesmo ficando "invisível".
O casal protagonista não se fala quase nunca (ela só diz uma frase para ele no final do filme), mas há entre eles uma comunicação tácita de gestos que valem mais que todo um discurso de filme sueco. Os psicologistas de plantão podem fazer trocentas leituras: na nossa sociedade globalizada existem pessoas que nos são invisíveis, mas que existem; não é preciso ver para se perceber uma idéia; nem mesmo falar para demonstrar a absurda poesia cotidiana e vai por aí a fora.
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Mas o que me deixou absolutamente "sem palavras" foi saber que este interessante filme foi escrito em três dias, filmado em praticamente duas semanas e montado em menos de um mês. Quando penso que algumas películas levam anos em concepção, filmagem e pós-produção, acho que a grande mensagem que o talentoso Ki-duk Kim nos passa é reafirmar ser possível realizar em cinema algo bom e belo fora do esquema da megaprodução. Como se demonstrasse que fazer cinema é coisa fácil. Quando sabemos que fazer filmes, especialmente bons filmes, é algo muito, muito difícil. Menos para quem tem verdadeiramente talento, é claro.
M.S.

3 comentários:

Belisa disse...

"Primavera..." é um filme fantástico, sem dúvida nenhuma. As imagens não só falam por si mesmas, como constróem uma narrativa perfeita através dos sentimentos, dos ciclos de vida e lições simples. "Casa Vazia", pelo visto, complementa essa idéia, e mostra que duas pessoas precisam muito mais do que palavras para se entenderem. O roteiro me lembra remotamente "Edukators", chegou a ver? Bom, minha curiosidade é tanta que pretendo ver em SP, quando vou passar um feriado no mês que vem. Abs!

Belisa disse...

Outra coisa... Também saí sem palavras de "Primavera..." e acho que a intenção é justamente essa. Só reflexão. No Roda de Chimarrão, só publiquei imagens com pequenas legendas. Não tinha o que dizer, só pensar, se deliciar, e repensar muitas coisas.

Marco Santos disse...

Você tem razão, Belisa. Tanto no encadeamento das belas imagens do "Primavera, Verão..." quanto na narrativa silenciosa do "Casa Vazia" vemos uma história contada praticamente sem palavras e descrevendo minuciosamente sentimentos. Neste novo filme do Ki-duk Kim, inclusive quem fala, na maior parte das vezes o faz aos gritos e com agressividade. Vou esperar você assisti-lo para a gente "trocar figurinhas". (infelizmente, perdi o "Edukators")