terça-feira, abril 05, 2005

Papel da sacanagem

Que tal falarmos de sacanagem? Mas uma boa sacanagem... Heim? O que lhe parece?
Calma. Eu explico.
Na sexta-feira passada fui ao Estação Unibanco, e enquanto esperava começar o filme, passei na livraria Luzes da Cidade, que fica ali mesmo. Para minha surpresa, encontrei em cima do balcão uma pilha de revistinhas de sacanagem do Carlos Zéfiro (relançadas pelo pessoal da Scena Muda, sebo-banca da Praça General Osório, em Ipanema). Ali, diante dos meus olhos, uma de minhas antigas ternuras! Foi o bastante para eu embarcar no velho túnel do tempo, até minha infância/adolescência...
Se você que me lê tem mais de 40 anos, é claro que me entende. Se tem menos de 40: Calma. Eu explico.
Imagine que houve uma época, no século passado, em que os rapazes naquela fase de mudança da infância para a adolescência, com os hormônios latejando por todo o corpo, não sabiam o que era ver, ao vivo e a cores, uma mulher pelada. Sexo, então, só na base do cinco contra um, descabelando o palhaço, apelando para a famosa cantora cubana "Palmita de la Mano". Eram tempos em que só faltava a gente apresentar a mão direita como "noiva". Tinha gente que sentava em cima da mão até ela ficar dormente; aí, segurava o carequinha, imaginando que aquela mão que não sentia era de outra pessoa.
As moças não davam a menor chance para a gente. Nos bailes e nas festinhas, ficávamos agrupados, com a "cuba-libre da coragem" nas mãos, aguardando aquela música lenta para tirarmos a escolhida para dançar (sim, na época se dançava junto, abraçando). Se o rapaz se empolgasse muito, se a moça sentisse um certo intumescimento naquela região entre a virilha esquerda e a direita, largava o excitado sozinho no meio do salão, com sua bela barraca armada. Nós, os rapazes, sacaneávamos o infeliz, embora sabíamos que aquele poderia ser qualquer um de nós. Quando algum conseguia namorar uma criatura fêmea, era tirar sorte grande. Embora só fosse conseguir passar a mão no peitinho dela se marcasse o noivado. As mais assanhadas, até ficavam naquela sarração de enlouquecer o "cabeçudo", que teria, necessariamente, de permanecer dentro das calças. Você está rindo? É...você não sabe como a coisa era dura (Er...tem um trocadilho aí, não sei se você percebeu).
Pois é. Em meio a estes tempos terríveis, a nossa salvação eram as revistinhas de sacanagem. Para compra-las, era necessário um adulto ir até uma determinada banca, com gestos cabalísticos, olhando para todos os lados de modo suspeito, como se estivesse comprando a fórmula da bomba atômica de uma potência estrangeira, e pegar aquele precioso livreto. O passo seguinte, era repassar para todos, que liam ávidos aquelas páginas, sorvendo letra a letra, traço a traço, aprendendo o que só faríamos anos mais tarde.
Ah...Quanta liberação de hormônios...E outros fluidos vitais também...
As histórias eram inverossímeis, mas quem estava disposto a servir de crítico literário naquela hora! Os desenhos, toscos, mas para nós pareciam fotografias de nitidez ímpar!
Grande Carlos Zéfiro!... Que anos e anos depois ficamos sabendo chamar-se Alcides Caminha Filho, um mero funcionário público, chefe de família respeitável, que se escondia por trás daquele pseudônimo para levar o sonho do gozo solitário a milhares (talvez milhões) de pessoas. Faleceu há alguns anos esta santa criatura que certamente está no Paraíso, pois só fez o bem a pelo menos duas gerações.
E um exemplar estava ali, nas minhas mãos, em plena livraria do Estação. Bastava eu pagar míseros doze reais e ele seria facilmente meu. Sem precisar fazer gestos e sinais cabalísticos. Só pegar e pagar. Ainda falei para o senhor que me vendia: "esta revistinha me traz de volta a minha infância!" Ao que ele respondeu: "A sua e de todos nós." Eu e ele ali, irmanados por aquela sacanagem de papel, lembrando do papel da sacanagem em nossas vidas...
Imagino que tudo isto soe muito estranho para moços e moças de tempos mais recentes. No outro dia, no Fantástico, um rapazinho ensinou para todo o Brasil como se "ganhava uma mulher". Era só perguntar para ela: "aê...já é ou já era?"
Segundo ele, normalmente a moça respondia: "já é!" E a saliência começava por ali mesmo.
A própria revista do Zéfiro em si hoje é patética. Existe sacanagem infinitamente maior do que a que ela apresenta na internet e de acesso fácil para qualquer freirinha carmelita adolescente, bastando clicar algumas teclas. Provavelmente nós enlouqueceríamos se houvesse internet na nossa adolescência. As coisas que eu tenho visto na rede transcendem o mais devasso dos meus sonhos de juventude.
Com um certo gosto na boca de pirulito Zorro misturado com Crush guardei meu exemplar de "O viúvo alegre" na estante. Sento no sofá da sala acompanhado pelos meus fantasmas da infância. Não dá para esconder um sorriso safado, que insiste em se afivelar no meu rosto.
M.S.

2 comentários:

Maria Helena disse...

Olá, me diverti muito com o post... já li alguns comentários sobre essas revistinhas, mas não cheguei a ver nenhuma... Vim parar aqui através de um e-mail q me foi repassado, voltarei mais vezes. Um abraço.

Elaine (Campinas/SP) disse...

Como "menina" e, mais ainda, "menina de família", não tive contato com as tais revistinhas... mas com as "barracas armadas" nos bailinhos, enquanto dançávamos, agarradíssimos, as músicas lentas, pode ter certeza que sim! E o engraçadinho era mesmo abandonado no meio do salão. Quanta inocência... eu sabia que tinha de me afastar do menino "nestas condições", mas, sinceramente, nem sabia ao certo por que... Adorei lembrar desses tempos e saber o que os meninos passavam! Beijos...